fábulas incompletas

textos, reflexões, poemas, fragmentos: fábulas incompletas

29 Abril 2010










fábula da morte à beira-rio








e se eu morrer à beira-rio embrulha o meu corpo num tronco de árvore
e deita-o na água e deixa-o flutuar e despede-te e deixa-me partir assim
e não chores triste e fica apenas a ver se a corrente me leva tejo abaixo
e segue-me pela margem e vais ver que é fácil e que a foz está ali perto
e já só tens de fazer mais esse esforço de tentar distinguir-me ao longe
e então se observares bem vais ver uma caravela sem mastro nem vela
e acredita que vou dar a volta ao mundo e me lembrarei sempre de ti
e que os mares são só sete e que talvez um dia quem sabe até regresse













trezentos e sessenta e cinco textos e trezentos e sessenta e cinco dias depois,
tenho a certeza de que as opiniões e os comentários recebidos
- que nunca conseguirei agradecer devidamente -
completaram as minhas imperfeitas fábulas:
este blog chegou ao






fim








28 Abril 2010









fábulas alheias







Se me comovesse o amor






Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou grvada a tua mão, e deixo o dia


caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer


o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.


Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.







Francisco José Viegas
in Se me comovesse o amor

















fábulas alheias







Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.






Daniel Faria








27 Abril 2010









penúltima fábula







sempre desejei escrever um soneto simples com letras de água
catorze versos alinhados da forma habitual numa folha branca
em que as palavras mais não fossem que ondas desalinhadas
e as frases pudessem evocar as imagens náuticas que em mim


se repetem todas as noites. deitado ao teu lado não adormeço
sem içar uma âncora, mesmo quando sei que sonhas um mar
por nós nunca dantes navegado. ouço a tua respiração suave
e sei que em ti se aporta a ilhas encantadas, em ti não morre


nunca a promessa do aroma da canela. se te navegasse podia
descobrir que afinal não estou preso a um cais e libertar-me
das amarras de sal nos meus pulsos de marinheiro que sinto


ao olhar a mansidão do teu corpo feito caravela ancorada a nós:
por que razão continuamos encalhados nesta maresia só nossa
se sabemos ambos que a maré apenas sobe quando a noite desce?









26 Abril 2010










fábulas alheias







Na poesia






Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia o gera





Gastão Cruz
in Rua de Portugal

















fábulas alheias







Os amigos






Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga –
Mas como sem os amigos
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão






Sophia de Mello Breyner Andresen
in Musa











25 Abril 2010









fábulas alheias







Do amor IV





Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.






Fiama Hasse Pais Brandão
in Fábulas
















fábulas alheias







Portugal






Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca






Jorge de Sousa Braga
in O Poeta Nu







24 Abril 2010








fábulas de lisboa






xxx. el-rei dos dois largos





(por ser indissociável das imagens que a acompanham, esta fábula terá de ser lida aqui)

















fábula de marear na tua carta







agora que a primeira onda invade o convés desta nossa caravela nua
só queria mesmo afundar-me contigo e salgar-me nas praias do teu amar,
flutuar sem temor no secreto compasso que adivinho em cada maré tua:
lendas de gigantes, musas da nossa canção, cabos ainda por dobrar...



(......)



agora que a última onda submergiu esta nau que se afundou em ti
já nem sequer posso içar âncora e marear na tua carta de marear,
desvendar os longínquos reinos que afinal sempre estiveram aqui:
mistérios do teu corpo, oceanos de alva névoa, sete mares por navegar...









23 Abril 2010










fábulas alheias







wild wilde (11)





There is only one thing in life worse than being talked about, and that is not being talked about.






Oscar Wilde

















fábulas alheias







Arte dos versos





Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.






Eugénio de Andrade
in Rente ao dizer









22 Abril 2010










fábulas alheias







queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma






Mário Cesariny
in Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano









21 Abril 2010










fábulas alheias







Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.
Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.






Bernardo Soares

















fábula do caminho marítimo






sabes do rio que nunca percorres no teu lamento
mas não soubeste desaguar nas ondas só nossas
e nem lhe adivinhas a foz nesta carta de marear


não tenhas medo de navegar um destes sete mares
apesar da incerteza desta água ferida que jamais sara
porque nos sei à deriva no rumo para a ilha dos amores


não sei se há mapas para quem sonha um mar acordado:
sempre li em ti o caminho marítimo para a minha índia
e basta-me a tua maré viva para ser de novo uma caravela









20 Abril 2010









fábulas alheias








Pele






Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele





David Mourão Ferreira
in Do tempo ao coração

















fábulas alheias







Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar


Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro


Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável


É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo


Sei que não posso chamá-la das margens






Daniel Faria
in Dos Líquidos







19 Abril 2010









fábulas alheias







Portugal





Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.


Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...





Alexandre O’Neill
in Feira cabisbaixa








17 Abril 2010








fábulas de lisboa






xxix. cidade dos sete mares





quem me dera aportar a ti mesmo longe de um porto
sentir-me tão próximo da lembrança das tuas ruas
que entre nós dois apenas esse nós pudesse haver
e poder ser parte de ti nos mapas dos teus mapas
como uma semente num fruto proíbido por colher


e balouçar qual navio perdido à deriva na calçada
da memória das antigas caravelas a ti ancoradas
cidade de contornos infinitos esculpidos em lioz
sonhada a preto e branco pelos que sonho em mim
voando nas asas do desejo ou nos braços desse anjo


que paira desaguado em ti como um suave delta
serás sempre uma linguagem ainda não falada
a promessa da palavra inaudita dita por escrever
nos velhos muros que parecem limitar-te a voz
mas que em silêncio são o grito da tua canção


e perceber que qualquer maré sobe tanto em cada cais
como na buenos aires de borges ou na dublin de joyce
mas menos nesta desassossegada lisboa dos pessoa
por ser mais náutica e livre que as águas que a lavam
por haver um mar em cada uma das suas sete colinas







16 Abril 2010








fábulas alheias







Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.





Alberto Caeiro
in O guardador de rebanhos







15 Abril 2010









fábulas alheias








Amostra sem valor






Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.


Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.


Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.






António Gedeão
in Máquina de fogo








14 Abril 2010









fábulas alheias








O ar passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s






António Ramos Rosa
in Declives















fábulas alheias






wild wilde (10)




Always forgive your enemies - nothing annoys them so much.




Oscar Wilde








13 Abril 2010









fábulas alheias








A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar







Jorge de Sousa Braga
in Fogo sobre fogo









12 Abril 2010









fábulas alheias








yes is a pleasant country:
if’s wintry
(my lovely)
let’s open the year


both is the very weather
(not either)
my treasure,
when violets appear


love is a deeper season
than reason;
my sweet one
(and april’s where we’re)





e. e. cummings







10 Abril 2010









fábula das palavras abertas







se conseguisse abrir as palavras e tirar-lhes a música de dentro
podia enchê-las com os meus sonhos de ulisses olhando o mar
ou rasgar-lhes a pele e ficar com um punhado de letras na mão.
e se eu pudesse ser outra vez a estranha tapeçaria de penélope
ensinava-lhe ao ouvido canções roubadas às palavras abertas
e dizia-lhe para me tecer só com fios de silêncios e segredos
para que de noite não tivesse de as cantar para me destecer.








09 Abril 2010








fábulas alheias







Poema




Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessa a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura





Mário Cesariny
in Pena capital







08 Abril 2010








fábulas alheias







As manhãs






Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
e sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs E madrugadas







Daniel Faria








07 Abril 2010








fábulas de lisboa






xxviii. calçada da bica pequena





é sempre ao subir lentamente esta calçada da bica pequena
que me ocorre que a cada pedra pisada as paredes se juntam,
um dia destes deixa de haver calçada, apenas dois muros unidos.


e quando ao descer apressado esta calçada da bica pequena
me lembro que não sou quem antevejo no fim dos degraus
desagua em mim, como a dor de um rio na tristeza da foz,
o remorso de não ter evitado pisar as pedras que tanto amo.


é sempre assim, ao passar por mim nesta calçada da bica pequena
nunca me esqueço que sou estas pedras e as paredes que se unem
e também sou quem passa e até um candeeiro quando a noite cai.








06 Abril 2010








fábulas alheias







Inscrição





Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto ao mar






Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro sexto








05 Abril 2010








fábulas alheias







O descascador de canela





Se eu fosse um descascador de canela
deitar-me-ia na tua cama
e deixaria o pó amarelo da casca
na tua almofada.

Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela
nunca mais poderias passar no mercado
sem a profissão dos meus dedos
flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria
certo de quem se aproximava
mesmo que tomasses banho
na chuva das calhas, na monção.

Aqui no cimo da coxa
neste macio pasto
vizinho do teu cabelo
ou do sulco
que te divide as costas. Este tornozelo.
Serás conhecida entre os estranhos
como a mulher do descascador de canela.

Só a custo te podia ver
antes do casamento
nunca te toquei
- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos
em açafrão, disfarcei-as com
alcatrão de tabaco
ajudei os apicultores a colher o mel…

Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água
e os nossos corpos permaneceram livres,
podias segurar-me e ser cega de cheiro
Saltaste a margem e disseste

isto é como tu tocas as outras mulheres
a mulher do cortador de relva,
a filha do queimador de limão
E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido

e soubeste

como é bom
ser a filha do queimador de lima
deixada sem marca
como se lhe tivessem falado no acto do amor
como se ferida sem o prazer de uma cicatriz.

Roçaste o teu ventre nas minhas mãos
no ar seco e disseste
sou a mulher do descascador
de canela.
Cheira-me.





Michael Ondaatje





03 Abril 2010








fábulas alheias






wild wilde (9)





I often take exercise. Why, only yesterday I had breakfast in bed.




Oscar Wilde






02 Abril 2010








fábulas alheias







Não sabemos o que o texto nos faz. Porque somos precisamente os que cegam perante o texto, que erguem os braços sem consciência. A literatura é perigosa porque é subliminar. É inteiramente visível, iluminada, mas nenhum leitor está acordado para saber quem é. A oferta infindável da literatura, eis o que ilude: tanta segurança nos dá ao mostrar-se disponível – que nos faz esquecer o seu preço. Dá-se como coisa comestível, mas para nos devorar.
Ninguém sabe que gestos faz quando lê, até que ponto obedece ao livro, que crimes comete por ter lido certo livro, que inocência súbita recebe por não ter lido outro. Alguns erguem os braços, outros suicidam-se por terem lido
Werther.





Pedro Eiras
in Substâncias perigosas







01 Abril 2010









fábula da nudez partilhada







olho para as palavras como se te olhasse nos olhos
e sei que me leio em ti quando as escreves em mim















fábulas alheias







Poema





Parte: como se tivesses de ser esquecida,
deixando atrás uma imagem de sombra. Não
leves contigo as palavras que trocámos,
como cartas, num instante de despedida; mas
não te esqueças da luz da tarde que os teus
olhos abrigaram. Por vezes, lembrar-me-ei
de ti. É como se, ao voltar-me, ainda me
esperasses, sem um sorriso, para me dizeres
que o tempo tudo resolve. Não te ouço; e,
ao aproximar-me dos teus braços, vejo-te
desaparecer. Mais tarde, penso, isto fará
parte de um poema; mas tu insistes. O amor
chama-nos, de dentro da vida; obriga-nos a
renunciar à imobilidade da alma, a sacri-
ficar o corpo a um desejo de memória.






Nuno Júdice
in Meditação sobre ruínas








31 Março 2010









fábulas alheias







os amigos





no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias


tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite


prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume


ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência






Al Berto
in A noite progride puxada à sirga








30 Março 2010








fábulas alheias







Hoje estou triste, estou triste,
Estou muito triste e, em parte,
Minha tristeza consiste
Em nem saber se estou triste.


Se toda tristeza tem
Uma causa, qual a desta?
Que mal a causa ou mantém?
Pode ser que seja um bem.


A alma humana é estrangeira,
E tem usos e costumes
Fora da nossa maneira.
Estou triste, ainda que o queira…






Fernando Pessoa








28 Março 2010










fábula de um amor inesperado






não pairou como vaga sugestão de flores maduras
nem se adivinhou pelo rumor das ondas da maré
uma presença não pressentida pelos dedos da chuva
um ténue traço de cor na solidão da árvore sombria


as folhas caídas não ouviram os seus passos breves
nenhuma calçada foi pisada por uma inaudita voz
a pele da água do rio apenas tocada por um aroma
mas nesse perfume misterioso eu soube que chegou


etéreo e difuso veio com o vento esse segredo teu
palavras apenas murmuradas num sussurro de mar
um poema tardio soletrado sobre a mudez da noite


e então um fulgor de nua luz inundou os silêncios
e logo nesse brilho cru escutei a ária do teu veleiro
a âncora de um amor inesperado neste meu porto








27 Março 2010








fábulas alheias







Eu amo






Eu amo o teu gravador de chamadas.
Ele não me abandona
e repete vezes sem conta
a tua voz.






Pedro Mexia
in Avalanche







25 Março 2010








fábulas alheias







Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.






Álvaro de Campos
in Opiário







24 Março 2010









fábula do rio que há em ti







esquece, navega em silêncio o rio que há em ti
mas lembra-te, as palavras estão nas margens…









23 Março 2010








fábulas alheias






Testamento





Disse: Creio na poesia, no amor, na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. Escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
O céu é sete vezes azul. Esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.





Giánnis Ritsos







22 Março 2010







fábulas alheias






Fado





Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças açoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.






Maria do Rosário Pedreira






21 Março 2010







fábulas alheias






Por vezes de um poema concluído
subsiste um aroma frágil instantâneo
que acende sobre nós uma ingénua estrela
que ilumina os nossos gestos
e aligeira os passos sobre as pedras claras





António Ramos Rosa
in A intacta ferida













fábulas alheias






(…)
Parece ter havido para a poesia em geral duas causas, causas essas naturais. Uma é que imitar é natural nos homens desde a infância e nisto diferem dos outros animais, pois o homem é o que tem mais capacidade de imitar e é pela imitação que adquire os seus primeiros conhecimentos; a outra é que todos sentem prazer nas imitações.
(…)





Aristóteles
in Poética








20 Março 2010







fábulas alheias






As minhas poesias são jóias
mesmo que sejam muito más






Adília Lopes
in O peixe na água






19 Março 2010








fábula minha e tua






uma flor nem sempre é uma flor

(nunca o disse
quando via rosas
crescerem em ti)

um veleiro sem mastros pode navegar

(nunca o confessaste
quando remendavas
velas em mim)







17 Março 2010








fábulas alheias






Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sente-se em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.





Alberto Caeiro






16 Março 2010







fábulas alheias






An artist is never ahead of his time - but most people are far behind theirs.




Edgard Varèse







15 Março 2010







fábulas alheias






Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.





Daniel Faria
in Dos Líquidos







14 Março 2010







fábulas alheias





Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para a parte ainda livre do dia seguinte.

Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.

Grande sossego de já não haver sequer
De que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por, por tédio, ter passado o tédio
E ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.

Há quantos meses vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego…
Grande tranquilidade…
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que poder olhar para as malas fechadas como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!

É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!





Álvaro de Campos







13 Março 2010







fábula do silêncio da água





pedes-me que te cante em silêncio mas não me ouves na água
a tecer uma canção de algas que sem ruído ecoa nas conchas.
e depois aqui no fundo de mim no fundo da água não sei bem
o que é o silêncio – sei que toda a música começa e acaba com ele.
ouve: serei sempre uma água amiga, a que quiseres cantar em mim…







12 Março 2010







fábulas alheias






93




Era uma vez uma ilha dos náufragos. Os náufragos chegavam cansados, rejeitados pelas águas. Quando finalmente atingiam a terra, naufragavam nela. Contra esta ilha as águas do mar eram de uma solidez incrível.





Ana Hatherly
in 463 tisanas






11 Março 2010







fábula da pérola






sabes que há uma âncora ainda por içar neste meu coração de veleiro num cais
que há um sonho de viagens errantes ao sabor de ondas que só falam de ti?
que quando leio cartas de marear só encontro rumo para o mapa do teu nome
que essa palavra se abre como uma ostra e no lugar da pérola estás sempre tu?







10 Março 2010







fábulas alheias






Borges e eu




Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.





Jorge Luis Borges
in O Fazedor (1960)






09 Março 2010







fábulas alheias






para voltar ao princípio do mundo





sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

e disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema






maria azenha







08 Março 2010








fábulas alheias






emotional weather report




late night and early morning low clouds
with a chance of fog
chance of showers into the afternoon
with variable high cloudiness
and gusty winds, gusty winds
at times around the corner of
sunset and alvarado
things are tough all over
when the thunder storms start
increasing over the southeast
and south central portions
of my apartment, i get upset
and a line of thunderstorms was
developing in the early morning
ahead of a slow moving coldfront
cold blooded
with tornado watches issued shortly
before noon sunday, for the areas
including, the western region
of my mental health
and the northern portions of my
ability to deal rationally with my
disconcerted precarious emotional
situation, it's cold out there
colder than a ticket taker's smile
at the ivar theatre, on a saturday night
flash flood watches covered the
southern portion of my disposition
there was no severe weather well
into the afternoon, except for a lone gust of
wind in the bedroom
in a high pressure zone, covering the eastern
portion of a small suburban community
with a 103 and millibar high pressure zone
and a weak pressure ridge extending from
my eyes down to my cheeks cause
since you left me baby
and put the vice grips on my mental health
well the extended outlook for an
indefinite period of time until you
come back to me baby is high tonight
low tomorrow,
and precipitation is expected





tom waits
(letra de canção)






07 Março 2010







fábulas de lisboa





xxvii. rua do carmo





e se esopo, lafontaine, a lebre e a tartaruga tivessem jogado às cartas?
e se ulisses tivesse encontrado montgolfier pelas ruas de lisboa
e te dissesse que um dia subira a rua do carmo num balão?
(…esquece o impossível, diz-me, não acreditavas?)







06 Março 2010







fábulas alheias





1

Penélope
é uma aranha
que faz
uma teia
a teia é a Odisseia
de Penélope



2

Penélope está
sempre
sentada



3

Ulisses é abstracto
Penélope é concreta
a teia é abstracta
e concreta



4

Penélope casa-se
com Homero
Ulisses fica a ver
navios






Adília Lopes
in Sete Rios Entre Campos














fábulas alheias






No mundo grego o fio era o símbolo poderoso do destino dos homens e estava nas mãos das Moiras: Cloto, que fiava o fio da vida presidindo aos nascimentos, Láquesis que o media e enrolava e Átropos, que determina o momento da morte cortando o fio da existência.
Á luz da temível soberania destas divindades, Penélope é muito mais que a imagem de fidelidade que Homero lhe destinou: ela é afinal ousada e astuta ao recorrer ao fio para traçar o seu próprio destino. Promete ao pai (que insiste em ver a filha novamente casada) que aceitará outro esposo quando terminar de tecer a mortalha do seu marido, mas apaixonada e esperançosa no regresso de Odisseu (Ulisses), adia sempre o fim do trabalho, desfazendo durante a noite, em segredo, o que havia feito de dia.
Sendo o tempo de tecer e bordar propício à meditação, imagino Penélope escrevendo na mente e na mortalha cartas de amor a Ulisses. Cartas de amor que se fazem e desfazem.
A carta de amor não é um objecto qualquer: é um objecto impregnado, um feitiço.
Transmissora de um desejo de proximidade, ela é a dádiva possível dos amantes apartados, suporte de presenças e pertenças impossíveis, lugar dos indizíveis e por isso sempre desesperadas.
Nas cartas de amor de Penélope para Ulisses retomo num tom mais intimista o tema da rede, que surge aqui enquanto construção do amor: frágil, sedutora, tantas vezes incerta e insegura.





Ana Tecedeiro
(Abril 2009)






05 Março 2010







fábula da sopa de letras





lembro-me de ser criança e viajar imenso à mesa pela beira do prato
quando havia sopa de letras: escrevia t-i-b-e-t-e ou a-n-t-a-r-t-i-d-a
e até me dizerem que tinha de parar ou comeria a sopa mesmo fria
acreditem, já tinha escalado o everest e posto uma bandeira no pólo sul...






04 Março 2010








fábulas alheias






Dualisme




Chérie, explique-moi pourquoi
tu dis “MON piano, MES roses”,
et: “TES livres, TON chien”...pourquoi
je t’entends déclarer parfois:
“c’est avec MON ARGENT A MOI
que je veux acheter ces choses.”
Ce qui m’appartient t’appartient!
Pourquoi ces mots qui nous opposent:
le tien, le mien, le mien, le tien?
Si tu m’aimais tout à fait bien,
tu dirais: “LES livres, LE chien”
et: “NOS roses.”




Paul Géraldy






03 Março 2010







fábulas alheias





O deserto




A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide inclinei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: “Estou a modificar o Sara”. O facto era ínfimo, mas as não engenhosas palavras eram exactas e pensei que tinha sido necessária toda a minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória desse momento é uma das mais significativas da minha estada no Egipto.




Jorge Luis Borges
in Atlas (1984)






02 Março 2010







fábulas alheias






As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos passáros que se abrigam.


É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas


Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos


As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.





Daniel Faria
in Homens que são como lugares mal situados







01 Março 2010







fábulas alheias






Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.


Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.


Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo


Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha, fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.


Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.





António Lobo Antunes
in Sátira aos homens quando estão com gripe






28 Fevereiro 2010







fábula de anita no alfarrabista
(um acróstico mais-que-devido)






antes das palavras terem sido
num tempo em que os sons eram imagens
inventaste um alfabeto sem letras para
ti, em que te escreveste como
anita

n
o

alfarrabista e onde
leste essas
fábulas
alheias:
raros são os livros
rasurados que ignoras,
as fotografias a preto e
branco que não
imaginas coloridas,
sonhos por outros sonhados,
tempo roubado ao tempo
antes das palavras terem sido






27 Fevereiro 2010








fábulas alheias






Toda a vida marítima! Tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
e eu cismo indeterminavelmente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico
em que não sei por que sugestão aprendida na escola
se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
e o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
de encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!





Álvaro de Campos
in Ode Marítima












fábulas alheias





wishlist




i wish i was a neutron bomb, for once i could go off
i wish i was a sacrifice but somehow still lived on
i wish i was a sentimental ornament you hung on
the christmas tree, i wish i was the star that went on top
i wish i was the evidence, i wish i was the grounds
for 50 million hands upraised and open toward the sky

i wish i was a sailor with someone who waited for me
i wish i was as fortunate, as fortunate as me
i wish i was a messenger and all the news was good
i wish i was the full moon shining off a camaro's hood

i wish i was an alien at home behind the sun
i wish i was the souvenir you kept your house key on
i wish i was the pedal brake that you depended on
i wish i was the verb 'to trust' and never let you down

i wish i was a radio song, the one that you turned up
i wish...
i wish...




Edward Louis Severson
(letra de canção dos Pearl Jam)







26 Fevereiro 2010








fábula das gotas de sal





por fim partiste, navio procurando um rumo em cada amarra por soltar
e assim o desespero vai desaguando em mim, como este tejo que olho
também os rios se afogam na solidão e na mágoa de uma inevitável foz
também me sei o mar que chora gotas de sal na onda que morre na praia






25 Fevereiro 2010








fábulas alheias






O guarda-rios





É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós




Jorge de Sousa Braga
in Os pés luminosos







24 Fevereiro 2010








fábulas alheias






Conclusão




Fui amante da morte
e da beleza. Vi a loucura,
acreditei na vida.
Da infância falei
como lugar de abismo.
O prazer
foi também a grande fonte
de perturbação e alegria.
Lembrei as mulheres
que recusaram submeter-se,
escrevi palavras fúnebres.


Não poupei a adolescência,
o coração magoado
e não soube que fazer
de mim fora das palavras.
Escrevi para desistir
e depender
e ter identidade.





Isabel de Sá
in Erosão de sentimentos






23 Fevereiro 2010








fábulas alheias





A imagem de vento




No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era
uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais,
e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos
de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses
marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses
em que estudou os costumes dos portos – sentavam-se à
parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho
da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e
que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou, então, viver essa experiência: embarcou num velho
cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam
o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlou-
queceu, e dizem que sobe ao telhado da casa, nas noites
de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher;
até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até
adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.




Nuno Júdice
in Lira de líquen





22 Fevereiro 2010








fábulas alheias





wild wilde (8)




Ah! Don't say you agree with me. When people agree with me I always feel that I must be wrong.




Oscar Wilde







21 Fevereiro 2010







fábula de bernardo soares





isso, ergue o olhar e fixa-te nos olhos que vês no espelho
tenta olvidar o peso do corpo nessa dorida mágoa de ser
e escreve, força as palavras a escorrerem nuas do coração
obriga os dedos da tua mão a serem os braços de um delta
deixa as palavras fluirem livres, deixa-as desaguar no papel
ignora por um momento os irmãos que sabes sentir em ti
procura no mais fundo deles o sentimento que vos é comum
irás sempre oscilando entre esses alguns eus que sentes teus
mas deixa nascer as letras, deixa-as agrupar, molda-as assim
porque creio saberes de cor as frases que ouves todos os dias
e a amarra deixada sempre presa ao teu cais se não o fizesses:
nunca saberias o que essas palavras te poderiam ter segredado
serias a sensação não vivida, esse verso que ficou por escrever
a letra náufraga perdida num oceano de alfabetos por navegar
o livro que nesse teu vão sossego merecia ser desassossegado






20 Fevereiro 2010








fábulas alheias






Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior


Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber


Homens à chuva com a mão nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior






Daniel Faria
in Homens que são como lugares mal situados






19 Fevereiro 2010








fábulas alheias





Encontros perfeitos




Treinava gestos ao espelho, ensaiava palavras, buscava o olhar apropriado a cada ocasião. Tardava em compreender que a realidade estava para além do espelho. Esperava a perfeita coincidência entre a configuração mental que tinha da realidade e a realidade ela própria.
Um dia cruzou-se com o Amor e não se reconheceram. Tinha encontrado a reciprocidade perfeita.




CristinaGS
in A Poeira dos Dias






18 Fevereiro 2010








fábulas alheias






Estóicos





Deixa-te ficar comigo à beira do rio.
Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza
nem a sedução da mocidade.
Se te falarem dos deuses, finge entender.
E se chamarem poeta ao dono do circo,
concorda gravemente.





Luís Filipe Castro Mendes
in Os dias inventados







17 Fevereiro 2010







pequena fábula plural






nunca como hoje me senti gémeo de mim mesmo
sento-me comigo à beira-nós e conto-me histórias
se pudesse sentar-me nos meus joelhos embalava-te
adormecia-me e sonhavas os sonhos que sei meus













fábulas alheias





Just like heaven




"Show me how you do that trick
The one that makes me scream" she said
"The one that makes me laugh" she said
And threw her arms around my neck
"Show me how you do it
And I promise you I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you"

Spinning on that dizzy edge
I kissed her face and kissed her head
And dreamed of all the different ways I had
To make her glow
"Why are you so far away?" she said
"Why won't you ever know that I'm in love with you
That I'm in love with you"

You

Soft and only
You

Lost and lonely
You

Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water
You're just like a dream

Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me

You

Soft and only
You

Lost and lonely
You

Just like heaven




Robert James Smith
(letra da canção dos The Cure)





16 Fevereiro 2010








fábulas alheias






Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, da operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar






Daniel Faria
in Homens que são como lugares mal situados













fábulas alheias





Poema de amor





Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo




Jorge de Sousa Braga






15 Fevereiro 2010





fábulas de lisboa






xxvi. espaço fábulas





chegou cansado pela subida dos intermináveis degraus das escadinhas
ulisses bem o tinha avisado: são sete as colinas e íngremes as calçadas
sentou-se numa pequena mesa que parecia uma máquina de costura
e depois viu chegar o outro senhor, de cabeleira e todo emplumado


a lebre ia a subir a bom ritmo a calçada nova de são francisco em lisboa
olhou para trás e viu que a tartaruga ainda não saíra do primeiro degrau
reconheceu esopo e la fontaine em amena conversa sentados a uma mesa
e não resistiu a parar um pouco para se refrescar e falar com os senhores


podia mesmo ficar por ali horas a palrar: a tartaruga nunca a apanharia…








14 Fevereiro 2010








fábulas alheias






uma raposa que tinha brincado com outra
no quintal da casa da mãe
às fábulas de La Fontaine antes de as ter lido
e que depois as leu e disse
as fábulas de La Fontaine tinham razão!
ficou com muita vontade de ir para a floresta
brincar a sério às fábulas de La Fontaine
à entrada da floresta estava uma raposa
a raposa perguntou isto é uma floresta
a sério ou a fingir?
a raposa da entrada da floresta
achou a pergunta tão ingénua
que achou que não valia a pena
estar a explicar à outra
que ali ou se come ou se é comido
e que para quem come como para quem é comido
saber se ali é uma floresta a sério ou a fingir
não é uma questão pertinente
isto aqui é uma casa particular
respondeu a raposa
e bocejou





Adília Lopes
in Os 5 livros de versos salvaram o tio






13 Fevereiro 2010








fábulas alheias





For want of a better title





The Countess
when the Count passed away

During a Bach
cello recital

Married an Archduke
the following day

For want of a better title





Roger McGough













fábulas alheias





Parece que o passarinho mandão mais conhecido por Deus soprou no flanco do primeiro homem para lhe dar vida e espírito.
Se em vez do passarinho tivesse estado lá Louis para soprar, o homem teria saído muito melhor.





Julio Cortázar, sobre um concerto de Louis Armstrong
in A volta ao dia em 80 mundos






12 Fevereiro 2010







fábula esparsa






[escreve
só
por
amor
rimas
sonhadas
acordada]


escreve-se em ti
sempre essa ária
pausada e triste:
antiga canção
repetida e
sem novos
acordes


escreves contra todos os
sonhos de outros em ti,
palavras por vezes
amargas que foste
roubar em ilhas tuas:
soubeste saber-te um
arquipélago à deriva


embora não saibas, escritos nas águas há
sete mares nunca dantes navegados que
procuram nas ondas os signos desses
alfabetos náuticos ainda por escrever:
rumos imaginados a bordo da tua caravela,
sabedora afinal do caminho marítimo para
amores não traçados noutra carta de marear







11 Fevereiro 2010







fábulas alheias






Há palavras que nos beijam




Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.





Alexandre O’Neill
in No reino da Dinamarca







Seguidores

Arquivo do blogue

Etiquetas

Acerca de mim

A minha fotografia
não sou um livro aberto mas faltam-me sempre páginas. escrevo quando posso e, de certo modo, posso quando escrevo.