fábulas incompletas

textos, reflexões, poemas, fragmentos: fábulas incompletas

11 Dezembro 2009







fábulas alheias






A boca




Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.





David Mourão Ferreira






10 Dezembro 2009







um acróstico pelo natal






fábula de veludo





momentos antes de
imaginar um raio de
sol sobre esse corpo
soube o seu nome:


vi as letras
esculpidas
li na noite
uma voz
dediquei-lhe
o silêncio







09 Dezembro 2009








fábulas alheias






wild wilde (4)




Every saint has a past – and every sinner has a future




Oscar Wilde









08 Dezembro 2009







um acróstico pelo natal






fábula de cristiana





colheste a última
rosa e sorriste
imaginaste-a
sem pétalas
totalmente nua
infinita e eterna
anónima flor
nomeaste-a:
apenas tu…






07 Dezembro 2009






fábulas alheias






Original é o poeta (*)



Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.


Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.


Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.


Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.





Ary dos Santos





* (este poema, colhido em "a poesia em flor", está aqui para lembrar que este poeta nasceu (e não morreu) hoje faz setenta e dois anos)












fábulas alheias






Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.


Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.


Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.





Luís Vaz de Camões





06 Dezembro 2009







fábulas alheias






Desfolhar uma rosa

é poesia
ou prosa?





Cruzeiro Seixas in Diário de bordo (1951)







05 Dezembro 2009







um acróstico pelo natal






fábula de leonor





lembrar e
esquecer:
o teu anjo
narra-te uma via,
o percurso para o
refúgio ansiado.



lento e alado
esse anjo paira
onde nem a luz
nem a noite sabem:
olvido e memória
repetem-se em ti…






04 Dezembro 2009








fábulas alheias






Olá, guardador de rebanhos,
aí à beira da estrada,
que te diz o vento que passa?


Que é vento, e que passa,
e que já passou antes,
e que passará depois.
E a ti o que te diz?


Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
e de cousas que nunca foram.


Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
e a mentira está em ti.





Alberto Caeiro in O guardador de rebanhos






03 Dezembro 2009







fábulas alheias






Talvez




Talvez até a Vida seja simples.
Os meus lábios são, por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.


Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)


Hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.





Maria Azenha






02 Dezembro 2009







um acróstico pelo natal





fábula de escrivaninha
(salvo seja, um acróstico devido…) *





excessiva,
supérflua,
complicada e
redundante é a
idéia talvez
vã de escrever
acrósticos
nunca antes
imaginados…
nem sempre
há motivo para um
acróstico:


sei-o
agora; mas
lentamente, uma
vontade oculta
obriga-me a


sonhá-lo:
e escrito,
jamais será
adivinhado…







01 Dezembro 2009







fábulas alheias






Para ti





Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre


Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida




Mia Couto






30 Novembro 2009







fábulas alheias
(*)





Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.


Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.


Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.





Ricardo Reis





* (este poema está aqui para lembrar que hoje, trinta de novembro, há setenta e quatro anos falecia em lisboa o senhor fernando antónio nogueira pessoa...
felizmente, nenhum dos seus irmãos desapareceu, estão bem vivos em nós, andam por aí - e são inúmeros, como muito bem recorda o irmão ricardo...)















uma fábula da leitura (*)





só há três tipos de leitores: os que nunca leram um livro e os que os leram todos.






*
(gostava muito de poder afirmar que este aforismo é totalmente meu…
mas tal não é verdade, creio já o ter lido escrito de outra forma e com outro tema; apesar disso, arrisco a publicação em meu nome.
como adoro jogos de palavras, esta referência a três classes citando apenas duas – e ambas impossíveis – diverte-me sempre…
talvez por encontrar nela um paralelismo com a beleza das demonstrações matemáticas por redução ao absurdo)








29 Novembro 2009







fábulas alheias






A luz que vibre
sobre o teu rosto
O mar que oscile
sob os teus ombros
O que me atinge
vem de mais longe
lá dos confins
em que te sonho





David Mourão-Ferreira













fábulas alheias





Embriaga-te




Deves andar sempre ébrio. É a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa sobre os ombros e te verga ao encontro da terra, deves embriagar-te sem cessar: com vinho, com poesia, ou com a virtude.

Escolhe, mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que passou, a tudo o que murmura, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são:
«São horas de te embriagares. Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso. Com vinho, com Poesia, ou com a virtude».




Charles Baudelaire






28 Novembro 2009








fabulosos náufragos voluntários






em nós (sempre que aqui estamos, neste areal ténue) duas redes se enroscam
e busco-me nos dois corpos nossos, como se eles pairassem sobre o vento
navegamos e sei-nos náufragos na maré viva desse odor agridoce e tão nu
enovela-se em mim o desejo de ser a tua vela, içada no lamento da noite
ancoro-me em cada vaga da tua pele humedecida pelo suor que sulcamos
e agito-me ao sabor dessa ondulação espelhada no silêncio da espuma tua
debato-me por fim na tempestade que desagua no nosso veleiro exausto
e afundo-me ainda outra vez no vago turbilhão que me faz flutuar em nós








27 Novembro 2009







fábulas alheias





Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.






Alberto Caeiro in O guardador de rebanhos







26 Novembro 2009







fábulas alheias





wild wilde (3)




To love oneself is the beginning of a life-long romance.



Oscar Wilde







25 Novembro 2009







fábulas alheias





Ein Traum (*)





Sabiam os três.
Ela era a companheira de Kafka.
Kafka tinha-a sonhado.
Sabiam os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka tinha-o sonhado.
Sabiam os três.
A mulher disse ao amigo:
«Quero que esta noite me desejes».
Sabiam os três.
O homem respondeu-lhe: «Se pecamos,
Kafka deixará de nos sonhar».
Um deles soube.
Na terra não havia ninguém mais.
Kafka disse:
«Agora que partiram ambos, fiquei só.
Deixarei de me sonhar».





Jorge Luis Borges in A moeda de ferro (1976)





(*) Numa magnífica nota final, Borges confessa:
«Certas páginas deste livro foram dádivas de sonhos. Uma, “Ein Traum”, foi-me ditada uma manhã em East Lansing, sem que eu a compreendesse e sem que me inquietasse particularmente; pude transcrevê-la depois, palavra por palavra. Trata-se, é claro, de uma mera curiosidade psicológica ou, se o leitor for muito generoso, de uma inofensiva parábola do solipsismo».







24 Novembro 2009








fábula da canção das águas (*)






se alguns podem viver do som da palavra que ecoa nas pétalas de flores
e outros nasceram para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho
eu apenas aqui estou para cantar aquela eterna canção que ouço na água
relembrar o cântico de rios que na morte numa foz logo renascem no mar
eu nasci só para tentar convencer-te a entoar a melodia das ondas na praia






* (dedicada a cristiana da poesia em flor)






23 Novembro 2009







fábulas alheias






O escritor
(a David Mourão-Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues)





Os livros acendem-se
devagar
nas suas mãos

são a memória
de madeira fermentada
sob a chuva

se a escrita
não é mais
que dor dolorosa

sombra estreme

haste arrefecida

ou eco longínquo
de desencontros

espada e gume
de todas as utopias

O escritor
esconde-se nos dédalos
da sua escrita

retoma velhas palavras
para dizer que sim
para dizer que não

O escritor
escreve paciente
e aguarda
que a terra
lhe seja o último grito

a última dor






Luís Serrano in Nas colinas do esquecimento (2004)







22 Novembro 2009









fábulas de lisboa






xxiii. martinho da arcada






caminha-se e contam-se as arcadas até à porta do martinho
depois quem entra fica sempre admirado pelo recanto vazio
e também algo desapontado por essa improvável ausência
afinal, com tanto heterónimo… algum devia estar presente



[como esta mesa tem sempre uma só chávena de café e um só copo de aguardente,
sempre quis saber qual dos muitos senhores pessoa se sentava neste «reservado»...
uma vez até perdi timidez e vergonha e perguntei se acaso sabiam se era fernando
ou álvaro ou ricardo ou alberto ou bernardo ou até alexandre ou mesmo outro qualquer;
olharam para mim e abanaram a cabeça, com aquele gesto de bonomia tão lusitana
com que se desculpam os que perdem tempo a saborear a magia nas palavras]








21 Novembro 2009








fábulas alheias







Procuramos o amor e a morte em cada rio
para que seja igual ao mar a nossa vida






Fernando Guimarães







20 Novembro 2009







fábulas alheias






Entre os teus lábios





Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.


No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.


Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.


Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.


Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.





Eugénio de Andrade






19 Novembro 2009








um acróstico
(fábula sobre as figuras de estilo *)






um acróstico
mais não é que uma figura de estilo,


aquele recurso
conhecido, me
ro truque
óptico
segundo o qual a primeira le
tra de cada l
inha soletra o nome que se quer citar…
confesso nã
o ver nisso grande vantagem…






* (quase uma tradução de um acróstico de roger mcgough, é dedicada a escrivaninha)








18 Novembro 2009








fábulas alheias






Lição sobre a água




Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, ínsipida e incolor.
reduzida a vapor,
Sob tensão e alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.


É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.


Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.




António Gedeão in Linhas de força (1967)






17 Novembro 2009







fábulas alheias






wild wilde (2)



Friendship is far more tragic than love. It lasts longer.



Oscar Wilde







16 Novembro 2009








fábula dos olhos no mar






não sei quando deixei de ver o teu olhar no meio das ondas
de sentir que alguém me fitava ondulante entre cada maré


sei que outrora me sentava à beira-tu à beira-nós à beira-mar
e só esperava que as águas me ensinassem a navegar contigo


mas de tanto olhar para ti não me lembrei de embalar o mar
de tanto olhar o mar esqueci-me de lhe desenhar os teus olhos







15 Novembro 2009







fábulas alheias






um tempo para tudo





Escreve:
No alto da manhã
prepara-se o sol
para uma chávena de chá quente.

caderno e lírios surgem mais tarde

entra,
fecha a porta.

agora precisamos de paz





Maria Azenha






14 Novembro 2009








fábulas alheias






O sal da língua





Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.




Eugénio de Andrade








13 Novembro 2009







fábulas alheias






Introdução a uma arte poética





São como gotas
de água as palavras
pequenas células
que se estilhaçam
quando o silêncio
as toca de sombra
e claridade


palavras cujo eco
ressoa por abóbadas
e se desfazem
em coágulos vivos
de silêncio


ou se transmudam
em pedra
e são o que resta
de velhíssimas catedrais
submersas pelo tempo


a língua (e o poema)
estão nestas pedras
na grafia rigorosa do bolor
com que palavras
e pedras
se transfiguram


nos charcos de silêncio
onde se abrem
os rios da lembrança
e do esquecimento





Luís Serrano in Poemas do Tempo Incerto, 1983






12 Novembro 2009








fábulas alheias






Os justos




Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.




Jorge Luis Borges in A cifra (1981)






11 Novembro 2009








fábula das palavras submersas (*)






submersa a minha voz não pode mais querer cantar palavras náufragas
o peso das águas tornou-a rouca e emudeceu-a presa ao fundo do mar
submersa a ideia de escrever poemas com o fulgor de um canto náutico
letras e frases que no papel içavam âncora e desfraldavam todas as velas
submersa a busca dessa tua palavra de doces pétalas infinitas e circulares
mais bela que a flor afagada pela rosa dos ventos que agora uivam mudos



e se a escrita mais não fosse que o prolongar de um olvido em silêncio
se as palavras não quisessem mais ser pronunciadas pelo eco das vozes
e pedissem para ser escritas pelas mãos dos que as irão decerto esquecer?
saberão elas que nem sempre sei o que escrevo, nem escrevo o que sei
e que a sua canção começa numa folha em branco e segue as gaivotas
até à foz de um rio de águas imóveis que não nasce nem pode desaguar?






* (dedicada a maria alves, escultora de poemas em prosa)







10 Novembro 2009







fábulas alheias






A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.


Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.


Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,


Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.





Fernando Pessoa







09 Novembro 2009








fábulas alheias






A um ti que eu inventei





Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.


Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.


Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.


Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.





António Gedeão in Máquina de fogo







08 Novembro 2009







fábulas alheias (*)




Blues da morte de amor




Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.


a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.


há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
ao lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.




Vasco Graça Moura





* (dedicada a Kuka)







07 Novembro 2009








fábula se adormecer contigo





se adormecer contigo saberei o que sabem os rios
quando sonham dormir no sonho da ansiada foz
e desaguam no sono que irá durar para sempre


se adormecer contigo irei flutuar nas águas profundas
de correntes nunca citadas naquelas cartas de marear
que gastaste a querer escrever tantas cartas de amor


se adormecer contigo voltarei a navegar por mares
nunca dantes navegados e a reconhecer nas ondas
o despertar acordado de um sonho dormindo em nós


se adormecer contigo é bem possível que não acorde
porque nesta noite está submerso um sono de sereias
em cuja canção há um naufrágio se adormecer contigo







06 Novembro 2009








fábulas alheias
(não isentas de comentário) *






Lenda




Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque eram ambos muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.
Abel respondeu:
- Tu mataste-me ou fui eu que te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
- Agora sei que na verdade me perdoaste – disse Caim – porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
- É verdade. Enquanto dura o remorso, dura a culpa.




Jorge Luis Borges in Elogio da sombra (1969)





* (extraordinário jorge luis… se saramago e o seu detractor tivessem lido em conjunto este texto há quarenta anos…)






05 Novembro 2009








fábulas alheias






Variações em tom menor




Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.


Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.




Eugénio de Andrade








04 Novembro 2009






fábula das grafias de um amor moderno (*)






:)
:-)
- ?
-
- !…
;-)
, ?
;
!)
!) !...
:P
:-(
<3

<3<3<3




[ele queria sorrir e escrevia um pontinho em cima de outro pontinho e o lado direito de um parênteses
ela estava de acordo e escrevia um pontinho por cima de outro pontinho e um traço e o lado direito de um parênteses
ele perguntava por que razão escrevia ela um traço entre o pontinho por cima de outro pontinho e o lado direito de um parênteses
ela respondia que queria escrever um nariz que estaria como é habitual entre os olhos do pontinho por cima de outro pontinho e a boca do lado direito de um parênteses
ele comentava que só alguém muito senhora do seu traço se lembraria de inventar um nariz com um traço
ela rematava com um pontinho por cima de uma vírgula e um traço e o lado direito de um parênteses
ele questionava para que servia uma vírgula por baixo de um pontinho e um traço e o lado direito de um parênteses
ela retrucava que ele não tinha imaginação nenhuma porque se tivesse alguma teria desde logo percebido que ela estava a piscar-lhe o olho
ele argumentava zangado que achava que piscar o olho era escrever um ponto de exclamação e o lado direito de um parênteses
ela desdenhava e dizia que nunca um ponto de exclamação poderia servir para piscar os olhos porque o olho fechado fica enorme em relação ao outro e se perde todo o efeito pretendido
ele irritado queria deitar-lhe a língua de fora e escrevia um pontinho por cima de outro pontinho e um p maiúsculo
ela entristecida redigia um pontinho por cima de outro pontinho e um traço e o lado esquerdo de um parênteses
ele arrependido insinuava o sinal de menor e o algarismo três e tentava fazer as pazes
ela escrevia apaixonada o sinal de menor e o algarismo três três vezes e rendia-se por fim ao amor]






* (dedicada a CristinaGS e a B. de A Poeira dos Dias, a quem furtei uma ideia... e algumas palavras de um diálogo)






03 Novembro 2009








fábulas alheias





Do culto dos livros





No oitavo livro da
Odisseia lê-se que os deuses tramam desgraças para que às futuras gerações não lhes falte algo que cantar; a declaração de Mallarmé: “O mundo existe para chegar a um livro”, parece repetir, uns trinta séculos depois, o mesmo conceito de uma justificação estética dos males. As duas teleologias, no entanto, não coincidem integralmente; a do grego corresponde à época da palavra oral, e a do francês, a uma época da palavra escrita. Numa fala-se de contar e na outra de livros. Um livro, qualquer livro, para nós é um objecto sagrado: já Cervantes, que talvez não ouvisse tudo o que dizia a gente, lia até “os papéis rasgados das ruas”. O fogo, numa das comédias de Bernard Shaw, ameaça a Biblioteca de Alexandria; alguém exclama que irá arder a memória da humanidade, e César diz-lhe: “Deixa-a arder. É uma memória de infâmias”. O César histórico, na minha opinião, aprovaria ou condenaria a sentença que o autor lhe atribui, mas não a julgaria, como nós, uma piada sacrílega. A razão é clara: para os antigos a palavra escrita não era outra coisa senão um sucedâneo da palavra oral.





Jorge Luis Borges in Outras inquirições (1952)






02 Novembro 2009








fábulas alheias






Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto com a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.


No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...


No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura — ou da água.





Fernando Pessoa (1932)






01 Novembro 2009







fábulas de lisboa






xxii. as janelas





reflectida nas vidraças és mais calma,
ondulante e difusa cidade de caravelas:
se os olhos são mesmo a janela da alma
o que se vê da tua alma nas tuas janelas?








31 Outubro 2009






fábulas alheias







Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es un ala del silencio,
el fuego tiene una mitad de frío.


Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso no te amo todavía.


Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos las llaves de la dicha
y un incierto destino desdichado.


Mi amor tiene dos vidas para amarte.
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.





Pablo Neruda







30 Outubro 2009








fábulas alheias






Explicação da Ausência





Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.





Daniel Faria






29 Outubro 2009








fábulas alheias






Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo.





Bernardo Soares in Livro do Desassossego






28 Outubro 2009








fábulas alheias







Quem bate a uma porta de folhas





Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas


Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu





António Ramos Rosa in Nos seus olhos de silêncio (1970)







26 Outubro 2009








fábula das palavras inventadas






não sei quando me pus a inventar palavras para tentar dizer que te amava
juntava letras sem sentido por saber que as que conhecíamos não serviam
nunca o nosso amor poderia navegar nos oceanos deste alfabeto imperfeito
quando te falava num navio fantasma escrevia rktfuwsjç mas tu não percebias
e nem valia sequer a pena escrever cais maré barco rio âncora vela água espuma

porque o que eu queria mesmo era dizer-te apenas num sussurro que há um eco
e depois egyvcxuatw iq dhsgapçkd dfsugltd bjezrfd gorhtw itysazkug wa ertwmp




(se ao menos pudesses ter ouvido o rumor do mar que não pude segredar-te)









25 Outubro 2009








fábulas alheias






Sempre a água me cantou nas telhas.

Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.





Eugénio de Andrade






24 Outubro 2009








fábulas alheias






Haja ou não deuses, deles somos servos.





Bernardo Soares in Livro do Desassossego






23 Outubro 2009








a palavra fabulosa






viii. deus





no princípio era o verbo e o verbo era a palavra:
deus criou a palavra muito antes da luz e das trevas
e dos céus e da terra e dos mares e dos homens


deus divulgou a palavra apenas falando aos homens
pois sabia bem ser o ouvir mais importante que o ler
porque os textos ouvidos entram no corpo pela mente
e não apenas através da visão imperfeita do olhar


e sabia estar a leitura indefesa ao decurso do tempo
porque ler é começar logo a esquecer o que foi lido
e a sabedoria vinda da escrita apenas um fragmento,
uma ilhota perdida num oceano de esquecimento


quando deus morreu (os homens foram-no matando
aos poucos nos livros que aprenderam a escrever)
os mais curiosos foram à procura dos seus escritos,
mas não se encontrou biblioteca nem qualquer cópia


pois deus ensinara uma palavra oral que sabia de cor
e sabia demasiado perfeita para homens imperfeitos:
alguns confiaram na precisão da memória e quiseram
transcrever o que recordavam desafiando a eternidade


por essa razão é a palavra escrita atribuída a deus
necessariamente incompleta e mais-que-imperfeita
e em livros ditos sagrados estar a sua voz ausente






22 Outubro 2009








fábulas alheias






Ah este caminho
que já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo





Matsuo Bashô







21 Outubro 2009








fábulas alheias






(…)

Escrever é um bocadinho a dívida que se paga pelo que se leu, embora não haja dúvida que o melhor de tudo é ser ladrão e receber tudo sem dar nada em troca.

É uma desobediência. Um dia – se prevalecer o bom senso – será ilegal. Porque os livros (a não ser uns muito chatos que já ninguém lê) pouco mais fazem senão mostrar como vale a pena desobedecer.

Os livros são escritos por quem não teve sorte na vida. Por quem odeia um bocadinho a vida tal como ela é. Inventar uma que não existe ou denunciar aquela que persiste acaba por ser a mesma coisa.

(…)






Miguel Esteves Cardoso in O mundo incompleto








20 Outubro 2009








fábula da procura das palavras






sinto-me um náufrago abandonado à procura de palavras num oceano de letras
procuro-as na imensidão do mar, tento chamá-las pelo nome que julgo ser o seu
mas se me ouvem não me respondem, nunca se aproximam nem se descobrem



e assim junto vogais e consoantes que vou encontrando ao sabor da ondulação
solto ecos de mágoa quando a noite me relembra a solidão triste das águas negras
mas sei-me o grito inútil da voz de um vento que sopra segredos a velas de areia







19 Outubro 2009








fábulas alheias







Faluas do Tejo





Faluas,
Vaga lembrança
Qu’eu de criança
Guardei para mim


Se as vejo ainda
Às vezes no Tejo
Revivo a alegria
Do tempo em que as via no rio a passar


Faluas do Tejo
Que eu via a brincar
E agora não vejo
No rio a passar
Faluas vadias
Que andavam ali
Em tardes perdidas
Qu’eu nunca esqueci


E era tanta a beleza
Que essas velas ao sol vinham criar
Belo quadro da infância
Que ainda não se apagou


E eu tenho a certeza
Que as faluas do Tejo hão-de voltar
Outra vez a Lisboa





Pedro Ayres Magalhães

(letra & música)








18 Outubro 2009








fábulas alheias






Writer’s block




The excitement I felt
as I started the poem
Disappeared on reaching
the end of the fourth line




Roger McGough







17 Outubro 2009








fábulas alheias







A imagem que conduz ao corpo





(…)

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?


Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
Animado de um braço intensamente vivo
Ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

(…)





António Ramos Rosa in Boca Incompleta (1977)







16 Outubro 2009








fábula da palavra mágica






na canção que o vento imita
nas velas içadas em silêncio
no navio inseguro da saudade



neste rio que nunca desagua
nos cais ancorados a um nós
na espuma invadindo a concha



paira em segredo o eco da tua voz



apenas queria transcender a palavra
que soltasse a amarra do teu coração






15 Outubro 2009








fábulas alheias






(Con)junções





A gente se gosta
A gente se goza
A gente se encanta
A gente se espanta
A gente se beija, se cheira, se junta
A gente se entende.
A gente se ama?



na cama no carro no banheiro no sofá


A gente se deita, se cai, se levanta
A gente se briga, discute, se irrita
A gente se escreve, a gente se amansa
se toca, se alisa
A gente se brisa
A gente se chove


A gente se cobre, se ouro, se prata
(a gente se lua ingrata)
- vomita besteiras, escreve asneiras e pede desculpas -
A gente se lua de novo
E se perde,
de novo,
no imenso encantamento manso.





Beatriz Galvão







14 Outubro 2009








fábulas alheias







Vive sem horas. Quanto mede pesa,

E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.






Ricardo Reis







13 Outubro 2009







fábulas de lisboa






xxi. rua dos navegantes





queres que tudo sejam salpicos de espuma na calçada
mas já não cruzas a minha rua salgada como dantes...
como podes então desejar partir nesta maré desaguada
se nem ousas atravessar comigo a rua dos navegantes?



[gostava tanto que pudéssemos voltar a ser as duas naus
que se descobriam no descobrimento das memórias lusas:
navegar desfraldados como essas velas brancas sobre paus
e sulcar mares de medos e deuses, de lendas e musas...]







12 Outubro 2009







fábulas alheias






recado





leva a lisboa azul quadriculada
que a vieira da silva já pintou
e a última gaivota que riscou
a sua leve luz acidulada


leva a névoa que cai pela amurada
e a corrente do tejo não lavou
leva as pedras que o tempo afeiçoou
e a saudade na voz sobressaltada


leva uma vela branca desfraldada
a que no mar salgado desenhou
um rumo que dos mapas não constou
e se desfez depois sob a nortada


leva também a vida amargurada
que o pobre coração desgovernou
e o recado febril que não chegou
contando da paixão desesperada


leva o tempo que foi e não voltou
e levarás contigo tudo e nada





Vasco Graça Moura






11 Outubro 2009








fábula em verso para aniverso (*)






aniverso
escreve em verso
e abre um universo
na palavra
aniverso
lavra
uma terra
que encerra
um tema
não escrito
a gema
de um poema
de um grito
numa ponte
de granito
entre o mito
e o horizonte



aniverso
escreve um verso
entre aniverso
e universo
uma só letra
é a diferença
na crença
que soletra
a magia
da grafia



aniverso
escreve inverso
e o reverso
do universo
assiste mudo
e ausente
a tudo
o que ela sente
não sabe o que dirá
após tanto verso
um livro escreverá
e o poemário
de aniverso
se celebrará
e chamar-se-á
aniversário







* (dedicada a ani bustamante... tejiendo pliegues en medio de geometrías inventadas)






10 Outubro 2009







fábulas alheias






it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;



if this should be, i say if this should be
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.





e. e. cummings






09 Outubro 2009








fábulas alheias






O silêncio





Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.






Eugénio de Andrade






08 Outubro 2009








fábula do naufrágio das palavras (*)






é no fundo do mar que encontramos as palavras perdidas
tentamos procurá-las, frágeis, nem sempre as encontramos
nunca nos são fáceis, mesmo quando as julgamos nossas
não lutamos por elas nem contra elas (nunca ganharíamos...)
mas olhamos a página em branco e sabemos como fazer
juntamos uma letra aqui, outra ali, uma palavra após outra
e assustamo-nos por pensar que de nós nasceu um poema



a verdade é que assim que nasceram deixaram de ser nossas
as palavras escreveram-se em cais tristes de navios imóveis
subiram a mastros, olharam o horizonte, desfraldaram velas
e navegaram para além dos nossos pequenos mares fechados
esculpiram-se nas antigas lendas de névoas e ilhas encantadas
foram cantadas por sereias temidas e ansiadas por navegantes
e um dia esqueceram-se de quem eram e por fim naufragaram






* (dedicada a van, a quem furtei uma ideia... e algumas palavras submersas)






07 Outubro 2009








fábulas alheias






Retomas a escrita.

As palavras dançam perversas entre o fumo de um cigarro que te inspira a mente e expira na folha pensamentos cortados, amarelos, rebentam-te na ponta dos dedos, soltas, doidas, frente-a-frente.
Combate perdido.
Só tu e elas... não tens hipótese. Nunca ganharás. Mas podes sempre tentar. Luta desigual. Só existe na tua mente louca como as palavras doidas que escreves. Não podia ser de outra maneira.




Van

(maio de 2008)






06 Outubro 2009








fábula em cada côncavo destas velas






imaginei-te quando mais não eras que um arbusto acabado de plantar
cresci-te com o meu desejo fértil e vi nascer em ti uma árvore de porte
cortei-te o tronco e deitei-o às águas na vaga ânsia das vagas do mar
naveguei-te caravela descobridora de mais um horizonte além da morte


e ancoro-me agora aos teus mastros, prendo-te a nuas âncoras que não sentes
(recortes do teu corpo em cada côncavo destas velas tépidas, quentes, ardentes...)







05 Outubro 2009







fábulas alheias






Eu




Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.


Depois, malograda trajectória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.


Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre


Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.






Fernando Pessoa








04 Outubro 2009







fábulas alheias






(…) She was perhaps not unique in this. Perhaps all writers, sitting alone in their towers, do not deep down believe that anyone reads them or, if they do, pays any attention to what they say, though they speak in marvellously confident voices. Or perhaps they are all sitting alone in their towers, unable to understand or accept that the world is not waiting restlessly for them to explain the how and the why of everything (…)





Jenny Diski in Apology for the woman writing






03 Outubro 2009








fábula da saudade







recordo-te com a inquietude de outrora, sentado à beira-nós à beira-rio...




espuma na memória do cais, a tua imagem dilui-se no ventre de cada onda baça.




se ao menos um dos navios se movesse, se ao menos uma âncora se içasse...







02 Outubro 2009







fábulas alheias






Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.





Alberto Caeiro






01 Outubro 2009








fábula de um perfume agridoce






conto os teus cabelos como quem desfia grãos de areia numa praia entardecida
e não sinto que o tempo se me vai escapando por entre os dedos da mão vazia
respiro a tua pele na ânsia súbita de um momento nosso, perfumado e agridoce
porque não sei o que acontecerá quando acordar e te não puder ver sobre o areal
mas, como o vento em redor de uma vela, como a espuma no final de uma onda,
gostava de ser essa presença vaga e ao mesmo tempo concreta, numa outra praia
e recriar-te dentro de mim sempre que me deito ao lado do teu mudo corpo nu







30 Setembro 2009







fábulas alheias





Porque não soube merecer



Porque não soube merecer a glória, a mais suave

de me deitar a teu lado
e que o sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou




António Ramos Rosa






29 Setembro 2009








fábulas alheias






As palavras




São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?





Eugénio de Andrade





28 Setembro 2009








fábula das palavras cada vez mais curtas






e depois a gaivota voa sobre o lamento do cais e de novo relembro a noite em que partiste
num orgulho de caravela em busca de uma pérola que bem sabes impossível de colher
vogando na pele do oceano sem ler mais cartas de marear escritas nas estrelas
descobrindo na obscuridade o brilho da ária secreta da solidão das águas
e como este meu porto deixou de ser de abrigo para a nossa voz


mas nem essa recordação mantém o mesmo eco
pois sinto as palavras cada vez mais curtas
e já só queria lembrar-me desse mapa
navegar à deriva pelo teu corpo
percorrer os teus rumos
invadir o teu mar
rasgar o azul
sempre
tu







27 Setembro 2009







fábulas alheias







Experience




Some men break up your heart in two,
Some men fawn and flatter,
Some men never look at you;
And that cleans up the matter.





Dorothy Parker in Enough Rope





26 Setembro 2009







fábulas de lisboa





xx. as calçadas





inscreve-se nas ruas de lisboa a lenda das calçadas:
anónimas esculturas de pedras-palavras esquecidas
que escrevinham poemas-passeios a preto e branco
e compõem canções-calçadas em apenas dois tons














fábulas alheias






Caminho pelo lado da rebentação das ondas –
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas


à praia. Sento-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:


agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar


ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.






Maria do Rosário Pedreira






25 Setembro 2009








fábulas alheias






As gaivotas não estão ausentes dos inventários mediterrânicos, quer vivam no mar ou na foz dos rios. De todas as aves que sobrevoam os navios e os acompanham nas suas viagens, elas são, sem dúvida, as que mais permanecem na memória. Também as gaivotas diferem umas das outras, mais do que parece à primeira vista. Afastadas dos estuários, lá para o interior das terras, onde se desvanecem as ligações com o mar, já não são as mesmas: são então pequenos guinchos fluviais que sobrevoam as pontes. Umas seguem os barcos quase por ócio, sem dar sinais de fome ou de voracidade, enquanto outras se mostram insistentes e glutonas. Ora vemos nelas uns simples pássaros que voam à roda das antenas, ora umas singulares companheiras de viagem. Há os que comprovam o seu insaciável apetite deitando-lhes restos de comida pela borda fora, e os que admiram a sua maneira de planar; uns interessam-se pelos fins, outros pelas linhas do seu voo. Raros são os que notam como as gaivotas afloram o mar quando ele está calmo ou agitado, com a ponta das asas ou do corpo, de pescoço esticado para a frente. Dantes, os marinheiros observavam ao entrar no porto as gaivotas que vinham ao seu encontro e delas tiravam presságios sobre o litoral a que acostavam, sobre os golfos onde lançavam ferro. Os laços que unem a tripulação às gaivotas constituem (será preciso lembrá-lo aqui?) um velho segredo, tanto do mar como da navegação, sobretudo no Mediterrâneo, onde é o mais antigo.





Predrag Matvejevitch in “Breviário Mediterrânico”





24 Setembro 2009








a palavra fabulosa






vii. montaigne (*)






o acto de escrever é um gesto solitário, talvez o mais solitário de todos, por fazer uso
de uma linguagem apenas ensinada para reproduzir uma voz interior nunca aprendida.
como poderia então a escrita ser uma forma de expressão válida da solidão pessoal?
e pode haver uma escrita sem essa solidão, e em tal caso, haver solidão sem escrita?
mas a solidão não pode ser dita, nem sequer escrita, sem logo deixar de existir.
ou então apenas poderá ser escrita numa distância que a proteja do olhar da leitura,
porque uma voz lida já não é a ária cantada pela solidão – pois quem é lido não está só.
talvez seja então a escrita esse limite impreciso que define o vago horizonte da solidão.
e escrever em tais condições será refazer o caminho – embora em sentido contrário –
percorrido pelo pensamento, retornar a escrita à fabulosa palavra inicialmente pensada.


{logo à noite, na isolada quietude do meu quarto na torre, tenho de passar isto para o papel}







(*) segundo uma ideia de Edmond Jabès – e dedicado à memória da extraordinária Marie le Jars de Gournay







23 Setembro 2009






fábulas alheias





Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Pões quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.




Ricardo Reis





22 Setembro 2009







fábulas alheias





loveless




you lie in the heat of a summer haze
and turn it into a winter's tale
you pull down the blinds and shut out the sky
and do what you can to turn the whole thing grey
you're crying and pleading and you're hell just to be with
and you're everything that i'll ever need
so why do you say you love me when you don't?
you fall back into the english way
of feeling only guilt 'cause you feel no pain
you sit and you stare at the empty page
and then you fill it with verse, make the whole thing worse
you lie and you cheat your own mind to believing
that you don't need anything or anyone
so why do you say you love me when you don't?
and why should i feel blue when i do?
why?
you lie in the heat of a summer haze
and turn it into a winter's tale
you fall back into the english way
of feeling only guilt 'cause you feel no pain
you're crying and pleading and you're hell just to be with
and you're everything that i'll ever need
so why do you say you love me when you don't?
why should i feel...
and who's gonna love the loveless if not you?
why?
why?




Lloyd Cole
(letra de canção, 1990)





21 Setembro 2009








fábula de um amor mais que perfeito






sei que a memória das paixões é mais forte do que elas
e que a ilusão de ser o que se é impelia aquelas caravelas



sei que há uma vela sempre içada no fundo de cada porão
e só naufragam os tais veleiros que fingem ser o que são



mas queria não ficar preso a este cais, assim sem jeito
(...quem me dera ter por ti um amor mais que perfeito...)







20 Setembro 2009







fábulas alheias






Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,



Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.



Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.






Fernando Pessoa (1930)






19 Setembro 2009








fábula há tanto tempo






ando há tanto tempo nestas águas em busca do teu sonho
naveguei tantas noites na procura da saudade da tua praia
que por vezes nem sei se ainda recordo a linha desse areal
na verdade percorri mares e mares, muito mais que sete
a tua memória de ilha foi sendo esquecida e reconstruída
e em mim te foste tornando uma visão negada pelas ondas



por vezes és a ilha verdejante rodeada de areia dourada
a que aporto naqueles dias em que me recuso a navegar
anseio pelo calor sólido da tua praia espraiada em mim
mas quando por fim me julgo deitar no teu areal sem fim
pareces-me sempre outra e já não sei se esta é a ilha que és
ou apenas uma miragem no horizonte que me recuso a negar







18 Setembro 2009







fábulas alheias






A pilot sees better than a stranger, because his local knowledge, like a sharper vision, completes the shapes of things hurriedly glimpsed; penetrates the veils of mist spread over the land by the storms of the sea; defines with certitude the outlines of a coast lying under the pall of fog, the forms of landmarks half buried in a starless night as in a shallow grave. He recognises because he already knows.





Joseph Conrad in The end of the tether






16 Setembro 2009








fábulas alheias






O horizonte das palavras




Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.




António Ramos Rosa in Acordes (1989)






15 Setembro 2009








fábula da canção do pirata







é ao entrares neste quarto que sei te tornas um pirata a soldo do amor
percorres-me com o olhar de quem interroga o horizonte de um desejo
e sabe de cor a combinação do cofre escondido no meu porão de nau



é quando me olhas e me tocas que volto a flutuar neste lago em nós
despida e misteriosa sinto a tua mão como uma onda ancorada em mim
e agarro-me ao teu corpo na certeza de uma jangada desaguada em ti



é vogando rumo à foz desta noite que me enrosco a ti como um molusco
os meus dedos espraiam-se no convés do teu ventre exposto a este mar
e as nossas bocas agitam-se e falam e prometem novos portos de abrigo







14 Setembro 2009








fábulas alheias

(não isentas de comentário)*






Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e a agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo
para acompanhar o seu fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto





António Ramos Rosa in Delta, 1996




(*) Nunca o livro se completa, mas é completa esta sua definição









13 Setembro 2009







fábulas alheias






Le grand sommeil




Je ne peux plus me réveiller, rien à faire
Sans moi le monde peut bien tourner à l'envers
Engourdi par le sommeil et prisonnier de mon lit
J'aimerais que cette nuit dure toute la vie


En partant tu m'as mis le cœur à l'envers
Sans toi la vie est devenue un enfer
Entortillé dans mes draps je crois me souvenir de toi
Lorsque tu disais tout bas que tu n'aimais que moi


Tout ce qui se passe au dehors m'indiffère
Que le monde saute ce n'est pas mon affaire
Dans ces draps bleus traîne encore l'odeur de tes cheveux
Ce bleu infiniment bleu que j' trouvais dans tes yeux


Lorsque je rêve tu es tout près de moi
C'est la seule façon de rester avec toi
C'est la raison pour laquelle je n'veux plus quitter mon lit
Pour qu'enfin toutes les nuits durent toute la vie




Etienne Daho
(letra de canção, 1982)





11 Setembro 2009







a palavra fabulosa






vi. platão





… e reflectiu:


o papel da escrita é o de guardião da memória
dispositivo prático para libertar a nossa mente
das cansativas tarefas da recordação das palavras
que os mestres nos ensinaram a recitar de cor
e das antigas lendas mais velhas que o tempo
em que deuses inventaram os sons e os gestos
e os homens as palavras, as orais e as gráficas,
em que alguns alfabetos têm uma origem mágica
e certas linguagens tantas vogais como planetas
em que o verdadeiro nome das coisas não pode
ser descrito por signos conhecidos do homem
mas a escrita é também uma prisão a um código
e por essa razão um homem livre nunca escreve
e apenas dita ao servil escriba a escrita do papel


… e sonhou:







10 Setembro 2009







fábulas alheias






Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.



E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.



Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.





Fernando Pessoa (1931)





08 Setembro 2009








fábula da arte de bem navegar






queríamos dizer-nos tudo sobre a arte de bem navegar
tínhamos algo nosso que cabia entre dois grãos de areia
mas sabíamos ser o luar do segredo maior que o da lua cheia
e as bocas quedavam-se imóveis e mudos sulcàvamos o mar




calava-nos um beijo, um daqueles que só nós sabíamos dar













fábulas alheias





wild wilde (1)




I never read a book I must review; it prejudices you so.


Oscar Wilde








06 Setembro 2009








fábulas alheias





(…)
Se sou homem de alguma leitura, também o sou de nenhuma memória.
(…)
Para compensar um pouco as traições e as falhas da minha memória (tão má que já mais de uma vez me sucedeu tomar em mãos, como se fossem para mim novos e desconhecidos, livros que, alguns anos antes, eu lera cuidadosamente e garatujara com notas) adoptei, de há tempos a esta parte, o costume de apor no final de cada livro (falo daqueles de que pretendo servir-me uma só vez) a data em que acabei de o ler e o juízo global que dele fiz, a fim de me fazer reviver, pelo menos, a impressão e a ideia geral que tive acerca do autor ao lê-lo.
(…)





Michel de Montaigne in Dos Livros (Ensaios, II, 10)





04 Setembro 2009







a palavra fabulosa





v. ain




lembro-me de ser criança e a minha mãe de mostrar a noite no céu
contar lendas de tribos em que a escrita era anterior à linguagem
traços mágicos gravados com ritmo no silêncio escuro de cavernas
fábulas de crenças antigas na voz íntima de pedras assim escritas
recordo a aprendizagem da nossa língua de sons feitos palavras
a consciência de ser muitas mulheres neste meu pequeno corpo
o prazer de criar e juntar novos sons e nem sempre ser entendida
a necessidade de inventar palavras novas para explicar o mundo



condenada por praticar encantamentos proíbidos pelo feiticeiro
olho a noite no céu e leio nele o que as palavras me disseram
e o que poderiam ter sido se pudessem ter crescido comigo
sei que não vou morrer queimada pelo fogo como os ladrões
mas que a minha pena é mais dolorosa por ser permanente:
com a vinda da luz irão apenas tirar-me os dentes da boca
mas não mais poderei emitir os sons das minhas palavras
e a minha morte ainda em vida nunca será lida nas pedras





03 Setembro 2009








fábulas alheias






374



Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria. Tinham-lhe dito que para a atingir tinha sempre de aceitar e recusar ao mesmo tempo tudo o que lhe fosse oferecido, dito ou mostrado. Quando perguntava por onde era o melhor caminho e lhe diziam “é por ali” ela devia seguir imediatamente nesse sentido e depois no sentido contrário. Tendo assim percorrido todas as direcções indicadas e as não indicadas, sem mais caminhos a percorrer, sentou-se no chão e começou a chorar. Sem saber, tinha chegado.




Ana Hatherly in 463 tisanas






02 Setembro 2009








fábulas alheias





(…) Ce sont les mots qui prennent une attitude, non pas le corps; qui se tissent, non pas les vêtements; qui scintillent, non pas les armures; qui grondent, non pas l’orage; (…) ; qui saignent, non pas les plaies (…) *



Pierre Klossowski




* uma tradução, imperfeita mas possível, seria talvez:

(…) São as palavras que tomam uma atitude, não o corpo; que se tecem, não os vestuários; que cintilam, não as armaduras; que rugem, não a tempestade;
(…)
que sangram, não as feridas (…)






31 Agosto 2009





fábulas de lisboa





xix. cais da rocha (*)





... e no entanto nenhum cais poderia ser apenas quotidiano
mero limite entre uma cidade imóvel e a fluência das águas
porque nos sabemos indefesos navegantes imaginados
perante a imensa vastidão do desejo de oceanos sem fim


e a simples menção aqui ouvida de portos longínquos
logo os torna nos nossos mapas ainda mais inatingíveis
encerra em si uma promessa difusa de outras aventuras
a ilusão romântica de viagens à deriva nos mares do sul


lugares que talvez mais não sejam que este cais da rocha
mas que estão suficientemente distantes para que em nós
amadureça e aumente e se perpetue essa ânsia tão sonhada


de destinos exóticos concebidos pelo nosso desassossego
de rumos nunca antes traçados em nenhuma carta de marear
de veleiros antigos que em silêncio cumprem as nossas vozes ...





* (dedicado a alain de botton, a quem furtei uma ideia e algumas palavras)






30 Agosto 2009







fábulas alheias






Nevertheless, no quayside can ever appear entirely banal, because people will always be minuscule compared to the great oceans and the mention of faraway ports will hence bear a confused promise of lives unfolding there which may be more vivid than the ones we know here, a romantic charge clinging to names like Yokohama, Alexandria and Tunis – places which in reality cannot be exempt from tedium and compromise, but which are distant enough to support for a time certain confused daydreams of happiness.





Alain de Botton in The pleasures and sorrows of work (2009)






29 Agosto 2009







fábulas alheias






A escrita, em suma, não é outra coisa senão uma fenda. Trata-se de dividir, de sulcar, de descontinuar uma matéria plana, folha, pele, lâmina de argila, parede. Foi assim que em tempos remotos da China se começou a «ler», com fins divinatórios, as fendas provocadas pelo fogo nas escamas das tartarugas ou os traços das patas de pássaros na areia.





Roland Barthes in Variações sobre a escrita





28 Agosto 2009







fábula em busca de um tesouro






ando nestes mares há anos em busca de um tesouro
promessa de pedras preciosas num velho mapa mouro


um baú cheio de cartas de marear com a tua canção
um navio altivo que leva o teu nome em cada padrão


como o rio que corre para a foz à deriva sem timoneiro
também no meu porão se esconde a âncora de um veleiro


sei que nada farás para evitar este meu vão navegar
porque em ti tudo são ondas, tudo é um imenso mar


mas pensas que não sei o que se passa neste oceano frio
ou acaso crês que é fácil ocultar que choro quando rio?






27 Agosto 2009







fábulas alheias






Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.


Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.





Fernando Pessoa (1934)





26 Agosto 2009







a palavra fabulosa





iv. atlantes





nascidos na tradição oral foram autores do livro dos livros
onde uma só palavra é divina e maior que a maior biblioteca
páginas infinitas apenas recordadas e oralmente recitadas


desprezavam a palavra escrita, ameaçadoramente plural
e fruto de interpretações pessoais, finitas e imperfeitas:
copiavam textos que destruíam depois de memorizados


sabiam serem donos e guardiões de uma livraria paralela
de livros eternos escritos apenas pelo poder da memória:
recitando-os exortavam os ouvintes a decorá-los também


pois um texto ouvido é fidedigno e absoluto na sua abrangência
a frase assume-se por fim completa para todos os que a ouvem
e uma só palavra se torna mais duradoura que a idade do tempo






25 Agosto 2009







fábulas alheias






Quizá me engañen la vejez y el temor, pero sospecho que la especie humana - la única - está por extinguirse y que la Biblioteca perdurará: iluminada, solitaria, infinita, perfectamente inmóvil, armada de volúmenes preciosos, inútil, incorruptible, secreta.





Jorge Luis Borges in La Biblioteca de Babel





23 Agosto 2009







fábulas alheias






350



Vou. Por vezes um pouco cegamente estendendo a mão para a folha em branco. É o meu percurso, o meu trajecto máximo que retomo e retomo. Mas nada preenche o vazio essencial que a escrita revela.





Ana Hatherly in 463 tisanas





22 Agosto 2009







fábulas de lisboa





xviii. jardim do tabaco





não quero ser apenas uma onda no mar de lendas que me contam
ou a promessa de mar calmo que qualquer tempestade torna vã...



ofereci-me ao tejo turvo e só atirando-lhe uma pedra redonda:
pequenos círculos concêntricos afastam-se um após o outro,
dançam e alargam-se, suspeitos e lentamente premeditados,
renovando-se num perpétuo movimento de onda periódica
que mantém uma cadência de vai-vem incessante em mim.



e embora eu adivinhe um vago receio nos seus sinais de vida,
também o rio sabe que o meu corpo treme de frio e de medo,
como os círculos pulsantes fugindo entre si, fugindo sempre
também eu tento uma última fuga sem me mover, preso a mim
num doce torpor mágico e enebriante como as águas opacas.



pedras redondas e corpos doridos: eis o alimento do rio.
se a água não fosse assim tão espessa, talvez me atirasse...
gostaria de partir como fumo desta doca do jardim do tabaco,
dissolver-me em sangue tingindo de mim toda esta corrente
e vaguear sem rumo rumo à foz desta mágoa espraiada no mar.



não quero ser uma oscilação emotiva de amarra fluvial esquecida
ou a promessa de porto abrigado que qualquer navio abandona...






21 Agosto 2009







fábulas alheias






Dans l’oubli de mon corps





Dans l’oubli de mon corps
et de tout ce qu’il touche
je me souviens de vous,
dans l’effort d’un palmier
prés de mers étrangères
malgré tant de distances
voici que je découvre
tout ce qui faisait vous.
Et puis je vous oublie
le plus fort que je peux
je vous montre comment
faire en moi pour mourir.
Et je ferme les yeux
pour vous voir revenir
du plus loin de moi-même
où vous avez failli
solitaire, périr.





Jules Supervielle in La fable du monde, 1938






20 Agosto 2009







fábulas alheias






Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.


A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.


Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.


Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.


Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.





Fernando Pessoa (1929)








19 Agosto 2009






deixa-me ser…





deixa-me ser o timoneiro dos teus sonhos de rumos perdidos
o padrão erigido na foz do rio que desagua na tua caravela
a vela içada sem medo na madeira dos teus mastros erguidos
o pincel mágico capaz de te captar nas cores de uma aguarela



deixa-me ser uma nau plantada na floresta do teu mar sem fim
a amarra solta ao vento no cordame que ao teu convés arranco
o único grão de areia na praia do teu corpo espraiado em mim
a espuma de uma onda colorida na tua maré a preto e branco...





(fábula antiga)




18 Agosto 2009







fábulas alheias






16.



Era uma vez uma palavra que estava sentada à porta de casa quando passou um rato. Bela palavra diz o rato. Como ia com muita pressa deu-lhe umas dentadas e engoliu-a. Mal. A palavra ficou-lhe atravessada na garganta. Então os dentes começaram-lhe a crescer para dentro.




Ana Hatherly in 463 Tisanas






17 Agosto 2009







fábulas alheias





Chanson dada




la chanson d’un dadaïste
qui avait dada au coeur
fatiguait trop son moteur
qui avait dada au coeur

l’ascenseur portait un roi
lourd fragile autonome
il coupa son grand bras droit
l’envoya au pape à rome

c’est pourquoi
l’ascenseur
n’avait plus dada au coeur

mangez du chocolat
lavez votre cerveau
dada
dada
buvez de l’eau





Tristan Tzara in De nos oiseaux, 1923






16 Agosto 2009







fábula das tuas mãos





as tuas mãos são as amarras que me prendem ao cais que sou
são elas que me mantêm a flutuar no oceano que me afunda
é a elas que aporto, após mil regatas navegadas sem sabor


nas tuas mãos desaguam dedos, braços de um delta esquecido
espraiam-se por breves momentos nos meus cabelos agrestes
e encerram em si promessas de esperança em cânticos de silêncio


as tuas mãos despertam serenas após cada noite agitada
são o refúgio de mim próprio por entre mares de mágoa
junto a elas não é preciso sonhar, basta senti-las, assim


nas tuas mãos posso não fazer frente à tempestade e à névoa
mas consigo ver nas ondas revoltas as mansas águas de um lago
nas tuas mãos resgato um corpo... e entrego o meu espírito






15 Agosto 2009







fábulas alheias





Meus versos são meu sonho dado.
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.


O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.


Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.





Fernando Pessoa (1930)





10 Agosto 2009







a palavra fabulosa





iii. alexandria





imaginada antes de idealizada, és filha de uma das mais antigas ilusões do homem
a quimera de pensar que toda a palavra humana pronunciada em todo o mundo
e posta em papiro sob forma de escrita poderia ser reunida sob um único tecto
numa fé esperançada de desafio e conquista do decurso inexorável do tempo


acervo infinito de todos os sonhos de seres preocupados com a imortalidade
o que te consumiu não foi afinal a sucessão dos dias e noites do mediterrâneo
mas sim um lendário incêndio entre a água e a areia, um fogo lento e intemporal
que reduziu a cinzas o teu passado e manteve a palavra apagada até ao presente


mas não na memória, eterna geradora de futuro: hoje és apenas um livro circular
orgulhosa dos teus trinta e dois metros de altura e cento e sessenta de diâmetro
olhas para ti e vês-te por fim imortal, nenhum fogo te destruirá porque te sabes
um círculo cujo centro está em todo o lado e cuja circunferência em parte alguma








09 Agosto 2009





fábulas alheias





433



Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam sua fúria com sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós.





Ana Hatherly in 463 tisanas








01 Agosto 2009







fábula: recordar o teu olhar





escrevi linhas que não cabem em biblioteca alguma,
páginas em verso e prosa, mil livros em suma.
compus uma sinfonia, pintei a tela mais famosa,
e esculpi deuses e lendas em mármore rosa.
atravessei os sete mares, subi mágicas montanhas
e fui o autor de mais estas incríveis façanhas:
descobri as rotas da seda, as estradas do chá,
caminhos marítimos para todas as índias que há.


só não consigo (por mais que queira ou possa)
recordar o teu olhar antes da primeira noite nossa...





31 Julho 2009







fábulas alheias





Mis libros




Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises y de grises ojos
que vanamente busco em los cristales
y que recorro com la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
Me dirán para siempre.




Jorge Luis Borges in La Rosa Profunda, 1975





30 Julho 2009







fábulas de lisboa





xvii. passeio das tágides





abandonamos o rumo traçado pelas estrelas e ventos nos oceanos
aportamos a um mar sem portos marcados nos velhos portulanos


abandonamos o passeio das tágides e voamos na gaivota que voa
aportamos a uma ideia de oriente a oriente deste oriente de lisboa


abandonamos caravelas e navegamos o mar que sulcamos nus
aportamos a estes corpos e ancoramos o desejo num porto de luz


abandonamos promessas e fazemos o mar mais doce que um beijo
aportamos a este amor e num porto de luz naufragamos o desejo






29 Julho 2009







fábulas alheias






Poema




As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.




António Ramos Rosa, in O Grito Claro, 1958





28 Julho 2009







fabulosa página de diário de bordo





soltaste as últimas amarras que te prendiam a este porto que sou
e desfraldas velas, ignoradas quando sulcávamos o desejo dos mares.
pudesse o vento trazer-te de novo e ancorar-te ao cais que te amou,
pudesse uma âncora nascer para sempre no local onde encalhares...



vais vogando num inquieto oceano que não vi enquanto te naveguei
e foges de mim como os sonhos dourados que perco quando acordo.
pudesse eu voltar a provar a espuma das ondas tuas que sulquei,
pudesse eu ser sempre a primeira página do teu diário de bordo...






27 Julho 2009






fábulas alheias





My Voice




Within this restless, hurried, modern world
We took our hearts’ full pleasure - You and I,
And now the white sails of our ship are furled,
And spent the lading of our argosy.

Wherefore my cheeks before their time are wan,
For very weeping is my gladness fled,
Sorrow has paled my young mouth’s vermillion,
And Ruin draw the curtains of my bed.

But all this crowded life has been to thee
No more than lyre, or lute, or subtle spell
Of viols, or the music, of the sea
That sleeps, a mimic echo, in the shell.




Oscar Wilde in The Fourth Movement





26 Julho 2009







a palavra fabulosa





ii. drid




drid caminhava ao longo da praia quando encontrou um crânio humano
enfrentou-o interrogando: crânio abandonado, o que te trouxe até aqui?
os maxilares da caveira abriram-se e ouviu-se claramente: a palavra
tomado por um súbito terror, quis fugir como um animal acossado
mas não se conseguiu mover, apenas voltou a repetir a pergunta
e a ouvir de novo aquela resposta de resignação dolorosa: a palavra


soltou um grito de pavor, correu o mais que pôde até à aldeia
só parou para se ajoelhar assustado aos pés do seu rei, narrando
com um tremor na voz tudo o que acontecera na areia molhada
não acreditaram na sua história e só a vaidade de possuir tal troféu
fez o rei erguer-se e caminhar até ao mar para reivindicar a caveira
e todo o caminho sob ameaças de morte se tal crânio não falasse


na praia, apresentando o seu rei, drid acariciou a fronte da caveira
pediu-lhe uma saudação, uma única frase, um simples murmúrio
a repetição do motivo que o trouxera até ali, um som que o salvasse
mas o crânio não pareceu ouvir melhor que qualquer ossada comum
mudo e imóvel, pousado na areia como uma alga trazida pela maré


perante o silêncio, incomodado por saber ter sido enganado, o rei
ergueu a sua espada de ferro e de um só golpe a cabeça lhe cortou
então o crânio abriu por fim os maxilares e interrogou a cabeça
que rolara pelo areal e se detivera junto a si: o que te trouxe até aqui?
a boca de drid abriu-se, a língua mexeu-se e a sua voz disse: a palavra





25 Julho 2009







fábulas alheias





18.


Era uma vez uma cidade habitada por palavras em que cada uma vivia em sua casa com as portas fechadas mas constantemente se visitavam ou então saíam para a rua e passeando cruzavam-se com as outras palavras e saudavam-se mas com o crescimento progressivo da cidade as palavras quando saíam para a rua começavam a chocar umas com as outras e chocando-se retiravam-se encolerizadas e regressavam a casa mas já não regressavam como haviam saído e dentro de casa aumentavam por um efeito de cólera morosa e lembrando sempre as outras palavras começavam crescendo dentro de suas casas e da próxima vez que saíam para a rua já iam transformadas e quando encontravam outra vez as outras palavras passava-se outra vez a mesma coisa e regressavam a casa e continuavam a crescer e sempre em direcções diferentes e cresciam de tal modo que já não conseguiam fechar as portas e novos braços abriam as janelas e a cólera subia pelas paredes e começavam a escavar o tecto e ligadas ao andar de cima entrelaçavam-se à palavra do outro apartamento que também estava encolerizada e já chegava até ao telhado e subia pela antena de televisão e gritava encolerizada com as palavras dos outros prédios já subindo pelo céu acima e toda a cidade estava aos gritos e já não havia mais espaço para as palavras crescerem a não ser emaranhadas umas nas outras e os seus gritos confundiam-se e as palavras estavam todas unidas irremediavelmente e gritavam todas ao mesmo tempo de modo que ao longe era só um grito enorme que mais longe se transformava num sussurro e de muito mais longe até não se ouvia nada.




Ana Hatherly in 463 Tisanas





24 Julho 2009






fábulas alheias





Siempre que he ojeado libros de estética, he tenido la incómoda sensación de estar leyendo obras de astrónomos que jamás hubieran mirado a las estrellas. Quiero decir que sus autores escribían sobre poesía como si fuera un deber, y no lo que es en realidad: una pasión y un placer.




Jorge Luis Borges





23 Julho 2009







fábula das caravelas à deriva





quando foi que pela última vez te naveguei ancorada a mim?
por que só vejo vagas onde estava a ilha que me é mais cara?
há quanto tempo interrogo este horizonte baço que se esquiva?


vejo que sou um navio que procura o porto do teu corpo, assim
numa inútil busca alucinada, de ferida salgada que nunca sara...
mas sei também que em cada onda tua dorme uma esperança furtiva:


porque embora perca a âncora que me prende a um sonho sem fim
e mesmo que as ondas que nos uniam sejam a maré que nos separa,
haverá sempre um anjo a olhar por nós, imóveis caravelas à deriva...








22 Julho 2009







fábulas alheias




Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.





Fernando Pessoa






21 Julho 2009






fábulas alheias





O homem vinga-se de si mesmo em tudo o que faz e, especialmente, em tudo o que escreve. Todavia, escrever é, ainda hoje, a única maneira de nos acomodarmos às coisas humildes. Nada há de tão humilde como a palavra, se é sincera.




Agustina Bessa Luís





20 Julho 2009






fábula-carta de marear





costumava navegar-te no pergaminho de uma velha carta de marear
e assinalava o descobrimento plantando no teu corpo um padrão
era assim que me afundava e emergia nessa foz por desaguar
mas perco-me agora sem rumo ao rever-te longe da vista… perto do coração





18 Julho 2009







fábulas alheias






Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio


Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração






António Ramos Rosa, in Viagem através duma nebulosa, 1960






17 Julho 2009






a palavra fabulosa





i. ouadane




apareceu faminto e seminu nas portas da cidade mauritana de ouadane
alimentado e vestido foi interrogado, mas mudos cerraram-se seus lábios
levaram-no para a biblioteca onde passava longas horas entre os livros
num pacto de leitura silenciosa, sem revelar o seu nome ou a sua origem


após vários meses neste misterioso comportamento disse-lhe o imã
estar escrito que guardar para si o conhecimento é não ganhar o céu
pois cada leitor mais não é que um capítulo na vida de qualquer livro
e estar escrito que não transmitir a sabedoria é condenar a palavra
ao enterro num esquecimento, injusto para quem tão bem nos serviu


abriu então a boca e dela saíram inesperadas e inauditas palavras
deliciosos eruditos comentários sobre os sagrados textos lidos
confessou ser um escultor da palavra, um compositor entre letras
desesperado pela surdez do mundo a toda a música das palavras
e ter prometido a si mesmo não voltar a falar até encontrar um lugar
onde os livros tivessem valor e a palavra fosse devidamente honrada







16 Julho 2009







fábulas alheias





dois sonh(ad)o(re)s




i:

tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso.

bernardo soares




ii:

yes, i am a dreamer, for a dreamer is one who can only find his way by moonlight, and his punishment is that he sees the dawn before the rest of the world.

oscar wilde





15 Julho 2009






fábulas alheias





em lisboa ao crepúsculo





I.


Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades.

E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!


Álvaro de Campos in “Dois excertos de Odes





II.


Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

(…)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!


Cesário Verde in “O Sentimento dum Ocidental







14 Julho 2009






fábulas de lisboa





xvi. farol do bugio





lembro por vezes que ser assim um areal aprisionado na tua ampla foz
é ser mais que um farol para navegantes perdidos que aportam a lisboa
agrada-me ser a última amante das tuas águas mansas de rio amado
iluminando a promessa de um oceano que te aguarda no horizonte


mas inquieta-me a ideia de estar rodeado de mim por todos os lados
como um grupo de ilhas cercadas por mensagens dentro de garrafas
perturba-me o sentimento de naufrágio do meu coração inebriado
após cada noite dormida imóvel na serena ondulação das tuas águas
exaspera-me a hipótese de mais não ser que uma nau encalhada em nós

enquanto outras rumariam para além de qualquer arquipélago assoreado






13 Julho 2009






fábulas alheias





uma genuína não-carta




silêncio. disse ela.
há flores que só vivem sem oxigénio. e há palavras na mudez.
o mundo está cheio de não-cartas e não-sonetos que saturam o ar.
por momentos há dilúvios. só por momentos

(isto é só uma mensagem numa garrafa)





Maria Alves, julho de 2009







12 Julho 2009







fábulas alheias






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e.e.cummings, in “95 poems”, 1958







11 Julho 2009






fabulosa palavra de quatro letras





para dizer quanto amo todas as frases são pequenas
nunca o poderei escrever de um modo completo
mas se o amor é uma palavra de quatro letras apenas
por que razão me ensinaram todo um alfabeto?






10 Julho 2009







fábulas alheias





Uma voz na pedra




Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.




António Ramos Rosa





09 Julho 2009






fábulas alheias





Balbuceo




Las palabras son pedazos de cuerpo

con los que pago esta insistencia.
Sola con la lengua
asisto al desvanecimiento del dueño
de los nombres.
Balbuceo.
Me atoro, carraspeo
sueno, toda, sueño.
con las manos sueltas,
tanteo el
deseo.




Ani Bustamante, Maio de 2009




08 Julho 2009






fábula a bordo





a verdade é que a bordo tudo se torna mais turvo


embarco neste navio sem saber que é o teu corpo
e escrevo de cor atlas e mapas náuticos só para mim


sei que sou um náufrago voluntário no teu mar sem fim
e perco-me em cada vaga tua, como o vento na espuma
que a ondulação do teu corpo revive nesta maré nossa


anda, escreve-me uma carta de amor numa carta de marear
guarda-a bem dentro de um envelope feito de pano de vela
e manda-ma num cofre escondido no porão de uma velha nau
ou então no convés cintilante do teu corpo de veleiro nu


e faz-me um soneto em verso salgado por todo esse teu oceano
um daqueles que me põem o coração pequenino, onde há velas
e caravelas que descobrem caminhos marítimos para âncoras
porque bem sabes que eu apenas tenho medo de me afundar
e não ter lugar no salva-vidas deste navio que é o teu corpo





07 Julho 2009






fábulas alheias





(…)
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que não podia imaginar.
(…)
Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam – quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes da paisagem – uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar. A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará.
(…)
Tenho um mundo de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
(…)





Bernardo Soares





06 Julho 2009





fábulas alheias





Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.




Alberto Caeiro





05 Julho 2009







fabuloso navio fantasma





libertar-me da âncora consciente que me segura a mim
partir hoje mesmo, errante e imóvel no meu sonho inerte
correr os sete mares como quem se desvenda com o olhar
desfraldar cada vela enquanto aos poucos me percorresse



defrontar a bruma que enfrento na minha própria névoa
abandonar-me ao sabor das vagas que vogam cá dentro
gritar de medo na tempestade do vago receio de me temer
afundar-me comigo na memória e vir de novo à tona em mim



não me sentir este navio apodrecido, preso ao cais que vou sendo








04 Julho 2009






fábulas alheias





( ... )
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
( ... )
Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares!
( ... )
Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto.
Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo.
Todos os marinheiros invisíveis a bordo dos navios no horizonte
São os marinheiros visíveis do tempo dos velhos navios,
Da época lenta e veleira das navegações perigosas,
Da época de madeira e lona das viagens que duravam meses.
( ... )




Álvaro de Campos in “Ode Marítima





03 Julho 2009






fábulas alheias





Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.




Ricardo Reis




02 Julho 2009







fábula incompleta para uma infinita irmandade




jorge luis borges dizia, num gracejo, ter conhecido walt whitman em genebra
(apenas por ter sido naquela cidade suíça que o tinha lido pela primeira vez).
sendo luís e borges, apesar de não ser jorge (o que faz toda a diferença, claro!),
também gosto de ser irónico e afirmar que conheci os irmãos pessoa em lisboa.


desde o momento em que os li se formou em mim uma imagem nunca abandonada:
no agora famoso dia 13 de junho de 1888, naquele 4º andar do largo de são carlos,
teriam nascido múltiplos gémeos… fernando teria raptado os irmãos à nascença
e guardara-os só para si. cresceu sentindo em si os irmãos. sentia-os e escrevia-os.
escreveu-os sempre, nunca os calou, tantos que nunca soube ao certo quantos eram
(e esse, creio, teria sido outro dos labirintos do seu desespero errante em lisboa)…


talvez por essa razão, por ter conhecido alguns dos irmãos pessoa em lisboa,
- sendo tantos, pressentimos sempre um pessoa um pouco por toda a parte -
possa afirmar que os sinto muitas vezes quando caminho perdido pela cidade:
já senti o engenheiro álvaro a subir comigo o querido elevador de santa justa
e também o desassossego do guarda-livros bernardo em certas ruas da baixa.
talvez por essa razão, por mais revista e aumentada que se possa desejar
(por mais irmãos que encontre mais espelhos se adivinham em cada um…),
esta seja também uma eterna fábula, incompleta e sempre difusa em mim.





01 Julho 2009






os fabulosos irmãos pessoa

(versão revista e aumentada) *





alberto ergueu a mão e tentou esconder o sol abrasador, voltando a recordar o pastor sem rebanhos que naqueles últimos dias não lhe saía do pensamento


o gesto não passou despercebido a álvaro, que julgou ver nele um impulso dinâmico provocado por esse estranho mecanismo de músculos e tendões encerrado num braço humano


ali perto, à sombra de uma árvore, ricardo despertara envergonhado de um vago sonho amoroso, e olhando para eles disfarçara o remorso num suspiro


suspirar de sofrimento pelo mal de poder sofrer, foi o que bernardo sentiu, percebendo que andava desassossegado por estar no campo com eles


fernando estava muito longe dali, num café da cidade levando um copo aos lábios... mas naquele preciso momento pensou nos irmãos e, pela primeira vez na sua vida, desejou ser filho único





* esta fábula aparecera a 29 de abril, mas a protestada ausência do irmão bernardo teria de ser corrigida...



30 Junho 2009






fábulas de lisboa





xv. largo de são carlos





alguma vez te detiveste a pensar nisto:
que canção ecoa no local onde nasceste?



pois apesar de mais não ser que um ténue sussurro,
a brisa cruza o largo de são carlos e traz uma ária
a um pessoa de pé e em si mesmo ensimesmado,
com a cabeça escondida num livro que não se folheia
num fono-fotograma estático captado em bronze.
essa melodia não está escrita mas parece agradar-lhe
e ressoa musical nas paredes do edifício onde nasceu.



consegues ouvi-la?






28 Junho 2009






fábulas alheias






Porque




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos são sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.





Sophia de Mello Breyner Andresen






27 Junho 2009







fábula da foz do teu corpo





quando a noite cai sobre as silhuetas do nosso espaço feito porto
fecho os olhos e imagino-me um navio pirata escondido no teu rio
deixo-me embalar pela ondulação ébria do teu sereno torpor a flutuar
submisso e submerso vou vogando rumo à foz do teu corpo qual delta
saibo-me a um mastro rasgando o azul à deriva como um náufrago
e manso e sábio desaguo num mar por mim nunca dantes navegado





26 Junho 2009






fábulas alheias




(…) Eu gosto muito dos que lavam a Língua. Há escritores que fazem isso. Despojam-na daquele excesso de ornamentação, de adjectivos, de descrições, de mobília, do raio que o parta. Na poesia também acontece isso. A poesia é outro universo. (…)


§§


(…) Portanto, o problema está resolvido. Pessoa. Camões. Quer dizer, o problema da nossa literatura está resolvido. Não é preciso inventá-la ou reinventá-la. Está escrita. (…)




Miguel Esteves Cardoso











fábula dos rios que nunca chegam ao mar





fui à procura de um amor na corrente de um rio para a foz
busquei os seus sinais de vento nas velas de um galeão
perdi noites citando aos deuses as velhas cartas de marear
li astrolábios, consultei em bibliotecas os livros dos avós
inventei preces às estrelas e pedi ajuda aos anjos... tudo em vão:
se soubesses como dói saber que há rios que nunca chegam ao mar






25 Junho 2009






fábulas alheias




Quem quiser dizer palavras não as escreva. A escrita é para quem deseja produzir memória e ser cuidadoso da sua eternidade.




Agustina Bessa Luís





23 Junho 2009






fábulas alheias




O discurso literário é uma forma de entendimento da realidade, nem melhor, nem pior que o discurso científico. Apenas diferente. O problema é que, ao contrário da Ciência, a sabedoria que o conhecimento literário nos proporciona não é quantificável. É-se mais sábio depois de ler Madame Bovary, mas é impossível quantificar como.



Não encaro a literatura como uma grande arte, mas como um trabalho artesanal. Comparo-me a um electricista que está a fazer um circuito eléctrico que tem que funcionar quando se liga o interruptor. É igual. Quando escrevo um parágrafo olho para ele para ver se funciona.




Juan José Millás





22 Junho 2009







fábula dos livros das ondas





bom é quando os salpicos do mar tornam o teu corpo branco como a cal
e as marés se amontoam em nós nas páginas de um diário escrito a sal
e eu fecho os olhos e leio-me nesses livros das ondas que sulcamos afinal



(que o teu barco seja a pele desta vela que desfraldo em ti
que a tua vela seja o barco desta pele que navega em mim
que a tua pele seja a vela deste barco que naufraga em nós)





21 Junho 2009






fábulas alheias
(não isentas de comentário)*




Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!


Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.


Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.


Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.




Luís Vaz de Camões




* Apesar da ária de lamento desencantado que ecoa neste texto, é um dos poemas em que sempre encontrei um porto de abrigo.
É também o único soneto de Camões que sei de cor.





20 Junho 2009






fabuloso aniversário





tenho cerca de cento e oitenta centímetros de altura
uma torneira debita litro e meio de água por minuto
essa esfera demora metade do tempo no plano inclinado
hoje é mais um dia em que se festeja o meu aniversário
o outro comboio desloca-se a noventa quilómetros por hora
mas há no tanque um furo com duas polegadas de raio
há vinte e cinco anos tinha metade da idade actual
sabendo que o peso deste cilindro é o dobro do primeiro
que a pressão manométrica relativa é de uma atmosfera
e que – se lá chegar – daqui a outro tanto terei um século
pergunta-se: como fugir à inevitabilidade da matemática?






19 Junho 2009






mapa para um beijo teu





um beijo teu transporta-me àquele areal tão escondido em mim



súbito leve murmúrio de versos que ainda ninguém fez rimar
na tua boca repete-se a frágil espuma de um mar apenas nosso



suave breve gota transparente de bravios regatos de montanha
ténue como a brisa que percorre em sussurro o emudecido vale
neste teu beijo nasce e cresce a magia da canção das flores sós



valsa no rodopio da saudade de um lago tranquilo e adormecido
dócil e perpétuo vai-vem de onda sinuosa nesta carta de marear
um beijo teu aporta aos meus lábios doridos um tépido bálsamo
e apazigua-me e embala-me e salga-me de esperança por dentro





18 Junho 2009





fábulas alheias





¡Ah, la frescura en el rostro de incumplir un deber!
¡Faltar es estar positivamente en el campo!
¡Qué gran refugio es que no se pueda confiar en nosotros!
Respiro mejor ahora, cuando han pasado las horas de los encuentros.
Falté a todos, con una deliberación del descuido,
Me quedé esperando a la voluntad de asistir, que sabía no llegaría.
Soy libre, contra la sociedad organizada y vestida.
Estoy desnudo, y sumergido en el agua de mi imaginación.
Es tarde ya para estar en cualquiera de los dos puntos donde estaría a esta misma hora,
Deliberadamente a la misma hora…
Está bien, me quedaré aquí soñando versos y sonriendo en itálicas.
¡Tiene tanta gracia esta parte asistente de la vida!
Ni siquiera consigo encender el cigarro siguiente… Si es un gesto,
Que se quede con los otros, que me esperan, en este desencuentro que es la vida.





Álvaro de Campos
(trad. de Carlos Andrés Ciro Velásquez, Antioquia, Colômbia, 17 de Junho 2009)









fábulas alheias




O fio da fábula




O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.

Cnossos, 1984


Jorge Luis Borges, in “Os Conjurados



17 Junho 2009






fábulas de lisboa





xiv. miradouro de santa catarina





sei que há um mostrengo de pedra atrás de mim, ou
então são os demónios que vi na gaivota que voou,
mas olho em frente para o rio que sei ser quem sou…


sei que há um veleiro fundeado em cada tempo que vivi,
que ondas e marés só existem num reflexo do teu olhar
e essa saudade é como espuma nestas cartas de marear.
mas se os portos do nosso desejo revelassem outro navegar,
talvez pudesse voltar a falar das caravelas que há em ti
e talvez te dissesse a razão de já não aportarem aqui...


[se aqui estivesses, gostava de te contar uma história
embalava-te e adormecia-te nos meus braços salgados
e enumerava coisas que nem as margens do rio sabem
segredos sombrios que me contaram as gaivotas brancas
e podia então explicar-te porque são tão tristes estes cais
e nunca mais foram avistados aqueles veleiros nossos]


só queria dizer-te que não há começo nem fim neste nosso nós
mostrar-te todos aqueles velhos mapas que me emudecem a voz,
mas sei que sabes que neste rio que sou não há nascente nem foz…





16 Junho 2009





fábulas alheias




Vidro côncavo




Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.



Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.




António Gedeão in “Movimento Perpétuo





15 Junho 2009






fábulas de lisboa





xiii. jardim das amoreiras




num falso movimento de imóvel promessa de refúgio
- imperceptível nesta ânsia de tranquilidade interior -
dou por mim a percorrer as fronteiras deste jardim,
improvável tecto para a subterrânea mãe-d’água,
quatro arestas à sombra dessa memória pombalina
das fabulosas trezentas e trinta e uma amoreiras
plantadas: alimento de bichos mágicos, alimento
da velha real fábrica das sedas agora feitas telas.



também falso sempre me soou o teu nome de amoreiras
(apenas porque nunca aqui vim colher ou comer amoras)
mas confesso-te: se pudesse, era em ti que desejava morar
até morrer - acredita que nisto não há qualquer falsidade -
e vejo num mapa o meu corpo junto com a sombra das árvores,
a cor das amoras, os bichos-da-seda, o fim de um aqueduto,
e tudo se funde numa só palavra: jardimdasamoreiras -
e, como sabes, uma palavra vale mais que mil imagens…





13 Junho 2009






fábulas alheias
(não isentas de comentário)*





Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.




Fernando Pessoa in “Cancioneiro



(*)
Este poema foi escolhido para lembrar que hoje se assinala o 121º aniversário do seu (múltiplo) nascimento.
Este poema está datado: 19-11-1935… Perturba perceber que o escreveu a apenas onze dias da sua morte…





12 Junho 2009







fábulas alheias





O mar




O mar. O jovem mar. O mar de Ulisses
E o daquele outro Ulisses que essa gente
Do Islão baptizou famosamente
O Sinbad do Mar. O mar de brisas
E ondas de Eric, o Vermelho, alto na proa,
E o daquele cavaleiro que escrevia
A epopeia e também a elegia
Da sua Pátria, em pântanos de Goa.
O mar de Trafalgar. O que a Inglaterra
Foi cantando na sua longa história,
O árduo mar que ensanguentou de glória
No diário exercício dessa guerra.
O incessante mar que numa linda
Manhã volta a sulcar a areia infinda.




Jorge Luis Borges in “O Ouro dos Tigres







11 Junho 2009







fábula para borges *





construíste buenos aires num mapa mitológico que só tu vias
e muito antes da cidade perceber que se identificava com ele,
imaginaste alfabetos secretos nas manchas de um jaguar
e confessavas por vezes teres pena de não teres nascido tigre,
gostavas de histórias em que um homem sonha com outro
até perceber que ele próprio é um sonho pelo outro sonhado,
compreendias que ser cego é ser fácil perder-se em labirintos
e temias os espelhos por ignorares o que estaria do outro lado.



desejavas que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca
porque te sabias um livro escrito e ainda por escrever,
admitias que a linguagem só pode simular a sabedoria
e disseste que com o tempo o poema se converte em elegia,
citavas de cor passagens dos livros que outros te leram,
em ti se repetia de novo um antigo diálogo com as palavras
[talvez por isso também gostasses de imaginar um universo
em que os livros não fossem necessários, por nele qualquer um
ser capaz de qualquer livro ou um novo verso, em qualquer língua]
e reconhecias que cada livro contém a promessa de todos os outros.



enfeitiçado pelos paradoxos do tempo e pela magia do fantástico
foste procurar esse texto infinito, que contém todas as combinações
possíveis de todas as letras e palavras em todas as linguagens,
a biblioteca ideal, a tua biblioteca de babel, esse infindável acervo
incluindo todos os livros concebíveis, passados, presentes ou futuros…



mas creio que no fim percebeste que o oposto era mais que provável:
todos os livros poderiam ser apenas um, e nesse haver uma só palavra.





* para todos os borges em nós borges






10 Junho 2009







fábulas alheias






(…) Há ocasiões em que é ele próprio quem escolhe um livro de uma das estantes. Sabe, evidentemente, onde está cada exemplar e dirige-se ao respectivo sítio, infalivelmente. Mas por vezes encontra-se num lugar onde as estantes não lhe são familiares, numa livraria nova por exemplo, e sucede então qualquer coisa de inquietante: Borges percorre com as suas mãos as lombadas dos livros, como abrindo caminho com o tacto pela superfície acidentada de um mapa em relevo e, embora desconheça o território, a sua pele parece decifrar a geografia. Fazendo correr os seus dedos por livros que nunca antes abriu, qualquer coisa de semelhante à intuição de um artífice lhe dirá de que se trata o volume que está a tocar. Chega a ser capaz de decifrar nomes e títulos que com certeza não pode ler. (…)




Alberto Manguel in Chez Borges






09 Junho 2009







fábulas alheias







Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.





Herberto Helder





08 Junho 2009






fábulas de lisboa





xii. elevador de santa justa




estás sempre longe quando não estou parado a olhar para ti
nunca consegui guardar-te numa imagem fixa na minha memória
por isso estás muitas vezes em mim ausente e presente também
porque é nessas ocasiões que me lembro que de ti nada relembro
gigante metálico muito mais alto que o mero percurso ascensional
imaginário vertical esculpido num alfabeto sem letras nem palavras



(é que as palavras têm esse dom independente das coisas que acontecem:
porque as coisas também aconteceriam mesmo que não houvesse palavras,
só que nesse caso teriam acontecido sem as palavras… e não seria igual…)







07 Junho 2009








fábulas alheias






Formoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.



A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.



Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! Quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!



Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu já não sei se serei quem de antes era.





Francisco Rodrigues Lobo







05 Junho 2009







fábulas alheias





Libera me




Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.


Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).


Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem.


E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.




Carlos Queiroz






04 Junho 2009







fábula do eterno triângulo amoroso






“Silva, amo
a sua esposa!
Sou o Sousa
e declamo…”




“Deixa-
-me a gueixa
em paz,
rapaz…”




“Queria não
ser musa
nesta ques…tão
confusa…”






03 Junho 2009






fábulas alheias





Má consciência




O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?


Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo
não por ilusão.



Alexandre O’Neill, in De ombro na ombreira, 1969







02 Junho 2009







fábulas de lisboa






xi. jardins gulbenkian





uma palavra:
semente plantada
num haiku



respira a folha
na cristalina
gota de chuva



no suspenso olhar
flutua a magia
do nenúfar



grito de húmus
vibrante corre em mim
a seiva do jardim







31 Maio 2009







fábulas alheias





Escrevendo




Escrevendo esperava que um misterioso entusiasmo
produzisse na página o cristal do mundo
e as suas árvores, os seus amantes, os seus rios
como figuras mágicas de um canto.
E que a água imóvel entre brancas ruínas
não reflectisse as imagens nem os sonhos
e à violência dos flancos das figuras
trouxesse o êxtase da beleza que não flui.




António Ramos Rosa, in O não e o sim, 1990







30 Maio 2009







fábulas de lisboa





x. largo das portas do sol





no meu olhar aberto às portas do sol a dolência do vento nas palmeiras
o azul e verde baço deste rio manso e as muralhas como um recorte no céu
a incerteza das pedras da calçada sob a agreste ondulação ocre dos telhados
o entardecer das cores na cor da tarde ávida de um desejo chamado eléctrico
a dolência do vento nas palmeiras no meu olhar de portas abertas ao sol








29 Maio 2009







fábulas alheias




O mar




(…) Acreditava-se então que a Terra era um disco, dividido em duas partes iguais pelo Mar, tal como os Gregos o denominavam – e que nós hoje conhecemos como Mediterrâneo – e pelo que chamamos Mar Negro. (Os Gregos designaram-no, primeiramente, de Axino, que significa mar Hostil, e, depois, talvez porque começaram a ficar familiarizados com ele, Euxino, o mar Favorável. Algumas vezes, sugere-se que lhe foi atribuída essa designação agradável para que a influência benéfica do nome se fizesse sentir nas suas águas, poupando assim as embarcações gregas). Em redor da Terra corria o grande rio Oceano, nunca perturbado por qualquer vento ou tempestade. Na outra margem do Oceano havia um povo misterioso, cujo acesso poucos seres humanos conheciam. Sabia-se que eram os Cimérios que lá viviam, mas desconhecia-se se a este, a oeste, a norte ou a sul. Tratava-se de uma terra envolta em nuvens e névoas, onde jamais a luz do dia raiava e sobre a qual o Sol cintilante nunca fazia incidir o seu esplendor, nem quando se erguia no Céu estrelado pela aurora nem à noitinha, quando voltava do Céu para a Terra. Sobre esse povo melancólico pairava uma noite profunda e eterna.
Com excepção dessa região única, todos os povos que viviam do outro lado do Oceano eram muitíssimo felizes. (…)




Edith Hamilton in “A Mitologia”, Publ. Dom Quixote (1983).








28 Maio 2009







fábula dos sinais de amor





exclamar um amor admirado!
tentar amar sem reticências…
como ignorar as interrogações?


o que faria se lhe pertencessem
o til do seu cabelo de romã
a cedilha da sua pele de açafrão
o apóstrofo dos seus olhos d’água?


desconhecia que o amor
é agudo por ser único,
circunflexo por ser sôfrego
e (se esconde entre parênteses);


mas como amá-la lhe era vedado,
(((imaginou-se a beijá-la)))
num amor proíbido, ponto final.








27 Maio 2009







fábulas alheias






If only he could, just like that, leave her
for another country, another I, another wife—
but if he did, he’d only leave himself behind.
He was tender, like a little boy whose blind

whining she endured, who constantly

complained about his small alarms,
until, finally, he’d grow silent, shedding happy
tears, a wrinkled man of eighty in her arms.

In ancient times there was a legend that averred

she-bears licked their shapeless newborn cubs
into their bear-shape. That’s how carefully

they nuzzle one another.

She gives him his “I” shape
then strokes him into her.





Herman de Coninck














fábulas alheias




Nas ruas de Lisboa

In memoriam Herman de Coninck *



Veio avisar
veio com rosto de sombra:
morrerá um poeta
nas ruas de Lisboa


Chove muito,
a chuva lavará
o seu cadáver.


Alguém dirá
o seu nome,
alguém lhe fechará
os olhos
que ele desejava abertos
sobre os segredos do mar.



Y. K. Centeno


* Poeta flamengo (1944-1997), morre tragicamente em Lisboa a caminho da F. Gulbenkian, para um encontro sobre poesia.
Na Rua Marquês de Sá da Bandeira, entre as pedras da calçada do passeio, há uma lápide evocativa do seu nome.







25 Maio 2009






fábulas de lisboa






ix. largo de belas artes






sonâmbula
acorda a sombra da árvore
adormecida









24 Maio 2009







fábulas alheias
(não isentas de comentário) *





(…) Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. (…)
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. (…)
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. (…)





Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, extr. trecho 259





* Bernardo, se soubesses o que era um «chat», não palavravas... escrevalavas, acredita.






23 Maio 2009








fábulas alheias




(…)

As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas macias que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.

(…)






Herberto Helder, in Poemacto








22 Maio 2009







Fábula-manifesto





Somos a ondulação da imóvel vontade que nos prende a este cais
Somos caravelas abandonadas ao sabor de marés de amplitude nula
Somos âncoras que se içam na promessa de horizontes sonhados reais
Somos descobrimentos na descoberta da plantação de mais um padrão
Somos o vento que segreda cânticos de silêncio a velas emudecidas
Somos atlas de cartas para a foz de rios que desaguam em si mesmos




Somos nós




Somos apenas nós







20 Maio 2009





fábulas alheias




Porto Brandão

Deste mar que é rio, verde escuro da sombra recatada do porto, contemplo verdes limos e verdes amores desenvolvendo-se nos recantos dos muros e penso no tempo, penso num desejo que não chegou para um navio, penso em superfícies lisas de pele e num nome bonito que embala.
Queria muito ter desatado cordas e inquietado um convés com atroadora voz e não menos impressionantes gestos.
Bastar-me-ia talvez ter sido leve e perspicaz.
Mas nem isso.
Queria não ter sido Brandão, não me ter tornado uma lenda pelos melhores e piores motivos. Sinto falta do meu corpo. O meu corpo sempre foi maior do que as minhas palavras.

Desejava também que estas águas me calassem de vez.



Porto Paulina

Abraço-te nas ondas que me levam um pouco daqui. Sempre que a maré muda, espero achar-te em secretos túneis, cumprir finalmente aquelas sinceras mas improváveis rotas marítimas conjuradas (lembras-te?). Quiçá não te moves também, como eu.

É certo, porém, que as Índias e o Tejo não me apartam de ti. Escrevo-te estas cartas que começam e acabam logo, há trémulas linhas que se liquefazem quase à nascença, e tudo isto no meu pensamento, vê como sou tola! É algo que me conforta, escrever-te em pensamento.

Queria contar-te o que se passa ao redor dos meus dias, mas não consigo. Há águas turvas de areia por aqui. Não há luz. Imagino tentáculos à volta das pernas. São algas. Já não tenho corpo, mas pressinto-o. Este é um dos segredos da morte.

Não há luz, não há luz.
Mas mergulharia outra vez, sabias?





Maria Alves, maio de 2009





19 Maio 2009




fábulas de lisboa




viii. rio abaixo





se morresse agora, na poeira deste momento
perdido nesta ondulação feita sentimento,
queria ser uma tábua dorida de mágoa:
dormindo serena rio abaixo à tona da água,
talvez encalhasse num porto de amantes,
onde brandão e paulina segredaram antes
mapas para a foz de uma paixão naufragada…
ou então ser só um rumor de madeira cansada,
âncora flutuante sem mastro nem pano de vela
(eterna e incumprida promessa de uma caravela),
vestígio de madeira húmida nublado pela memória
em busca dos reinos da pimenta, do ouro e da glória…







18 Maio 2009







fábulas alheias
(não isentas de comentário) *




Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. (…) Um romance é uma história que do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso. (...)




Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, extr. trecho 116




(*) Que diz, amigo Bernardo,
«que ninguém fala em verso»?
Compreendo o seu pesado fardo,
mas olhe que isso é controverso…










fábulas alheias





(…)
Se não fosse o sonhar sempre, o viver num perpétuo alheamento, poderia, de bom grado, chamar-me um realista, isto é, um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente. Mas prefiro não me dar nome, ser o que sou com uma certa obscuridade e ter comigo a malícia de me não saber prever.
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.
(…)



Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, extr. trecho 221







16 Maio 2009







fábula da arca de noé
(versão alternativa)




no dia da grande inundação ficou escondido
imperceptível entre as folhas de uma árvore
viu chegar noé com a sua velha t-shirt
apreciou o ritmo ordeiro da entrada dos animais
subindo a rampa para a barca lado a lado,
casais felizes contados com o grito “2”
dito pela mulher de noé na base da rampa
e com o “dois” de confirmação dito por ele
à entrada da grande arca de madeira resinosa


o que mais lhe custou não foi ter sido rejeitado
nem sequer noé lhe ter chamado “hermafrodita”
a maior dor foi ouvir aquele improvável e irreal grito “1”
ser aceite com um sorriso pelo “um” prazenteiro de noé













noah’s ark fable
(foolish extended english version)




on the day of the flood
noah woke up early.
he put on an old t-shirt
wherein it was written:


«adam shot the apple
into his vein
and adam said to eve:
me tarzan, you jane» *


“2” … “two”
“2” … “two”
“2” … “two”
“2” … “two”


“2” … “two”
“1” … “one…
… one?… ah yes, it's you
… welcome aboard…”




* (stolen from a timbuk3 song)











fábula da arca de noé





“2” … “dois”
“2” … “dois”
“2” … “dois”
“2” … “dois”


“2” … “dois”
“1” … “um…
… um? … ah sim, és tu
… bemvinda a bordo…”








14 Maio 2009





fábulas alheias





As palavras



Há palavras que são sombras de árvores
ou um bálsamo da terra,
um pressentimento de espuma,
um incêndio do tacto,
uma reverência ao desconhecido.
Amo as palavras que são às vezes sonâmbulos cavalos,
satélites de granito,
raparigas cegas no fundo das casas,
veias de uma estrela submarina.
Como não amá-las pela brisa
se são pétalas de um clamor silencioso
ou anjos sossegados dormindo sobre a terra
ou lúcidas e ébrias, majestosas e puras,
magníficas como um dorso recamado de estrelas,
intacta revelação de invioladas luas?
Desconfio das palavras, mas às vezes são leves, musicais,
aves que planam sobre uma cidade branca,
ilhas mágicas, selados vasos, cordeiros recém-nascidos,
caravanas vermelhas, armadilhas de cristal,
amoroso tremor de matéria terrestre.
Como um boi nocturno das águas, eu procuro
essas guitarras plantadas nas plantas
que através de eclipses e da distância
erguem uma árvore de música ou uma pirâmide
ou as lianas vivas que me defendem dos abismos.
Como estátuas de ar as palavras levantam-se
na harmonia delirante do nómada do deserto.
Quer sejam suspiros entre arbustos ou sonâmbulas melodias
estão sempre à altura dos seus próprios desejos.
Quer o cérebro sangre ou a terra estremeça
o seu cerimonial é inesgotável, as suas relíquias vivas.
São abelhas ou astros que buscam alimento
nos ninhos de amêndoa ou nos espelhos da lua?
Amo as palavras, acredito nos seus cristais secretos,
nos seus cavalos subterrâneos, nos seus densos diamantes.
Escrevo-as com minucioso ardor entre nascentes e sombras,
sei que são anjos de argila, antiquíssimos arqueiros
que disparam as flechas de erva sobre estrelas vivas.




António Ramos Rosa, in O não e o sim, 1990











fábulas de lisboa




vii. alcântara. mar.





Abandonado ao frio e ao silêncio suspeito da noite na doca cinzenta
Olho em redor e julgo ver-me num recanto pouco iluminado do porto


O navio é o único aqui aportado, posso vê-lo agora com maior nitidez
Aproximo-me e sinto que se liquefazem a cada passo as pedras do cais
Estou em frente da amurada e as docas tornaram-se já ondas agitadas
Liberto-me de grilhetas remotas enquanto olho este cordame húmido
Subo a pulso um cabo perdido na bruma e solta-se em mim uma amarra
Piso o convés como quem se desvenda diante de um espelho polido
Escalo o mastro da gávea, interrogo a bruma além do horizonte
Reteso as cordas, iço âncora, desfraldo as velas, navego para longe


Abandonado ao frio e ao silêncio suspeito da noite na doca cinzenta
Olho em redor e julgo ver-me num recanto pouco iluminado do porto






13 Maio 2009





fábulas alheias




A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.



Herberto Helder, in Última ciência










fábulas de lisboa




vi. dois portos num rio




há muitos portos no porto que é lisboa…
este é o mapa para a descoberta de dois deles, numa adaptação de uma lenda tradicional das margens do tejo.


reza a tradição que brandão, um jovem empregado na construção naval, namorava às escondidas paulina, a filha do patrão do estaleiro; este armador ambicioso teria prometido a mão de sua filha a um importante comerciante que se encontrava na índia.
uma noite, desconfiado ou cauteloso, o patrão preparou em segredo a partida de paulina num navio.

mas o jovem brandão ter-se-ia apercebido de tudo - quando o barco estava para largar, dirigiu-se em silêncio, num pequeno bote a remos, para o navio a fim de raptar a noiva.
ao contrário do que muitas vezes acontece aos amantes, a sorte não lhe sorriu: foi descoberto e acusado de ser um vulgar ladrão… corajoso e apaixonado, decerto tentou resistir e o comandante mandou-o matar…

lançaram por fim o seu corpo ao escuro tejo.
com silenciosas lágrimas de revolta, paulina terá presenciado todo o episódio; depois de ter visto o corpo do seu amado submergido pelas águas negras, decidiu acompanhá-lo na morte, e ofereceu-se também ao rio...

alguns dias depois os dois corpos foram devolvidos pela maré e encontrados em areais diferentes.

com o drama ainda presente nos corações populares, logo deram às praias os nomes dos amantes desafortunados.
a praia depois chamada porto paulina é hoje conhecida por lazareto.
o areal onde o rio depositou o outro corpo, ainda hoje se designa por porto brandão...



admito que brandão e paulina não são romeu e julieta - nem pedro e inês;
mas (por haver no tejo mais sal que na fonte das lágrimas) quem poderá afirmar que o seu sofrido amor era menos intenso?... essa incerteza faz desta uma fábula incompleta…







11 Maio 2009




fábulas alheias




somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though I have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands



e. e. cummings in “W [ViVa]” (1931)







fábulas de lisboa




v. alto dos moinhos




«cantaremos todos a mesma fria mágoa dorida
sofreremos todos a mesma espessa dor cerrada
amaremos noutros sempre o mesmo corpo amado»
… pensou


«navegaremos todos ao sabor de ondas sem rumo
esqueceremos todos saudades de um mar só nosso
fora de nós não vogam navios chamados tristeza»
… pensou


entretanto o metro abriu as portas… levantou-se e saiu;
soube então que ser quixote é sermos nós connosco:
e foi dar luta sem tréguas a moinhos imaginados
(…pensou)







09 Maio 2009





fábulas alheias




Desassossego



(…) Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Medito, então, em uma modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia (…)



Bernardo Soares in “Livro do Desassossego”, extr. trecho 107.










fábulas alheias




Metamorfoses da Casa



Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.




Eugénio de Andrade in “Ostinato Rigore





08 Maio 2009





a fabulosa raposa e as uvas




«contam que certa raposa
andando muito esfaimada
viu roxos maduros cachos
pendentes de alta latada…»


contrariando a fábula perene
do tal senhor de la fontaine
a raposa parou, ergueu o nariz,
pulou, comeu as uvas que quis
e terminou com um disparate:
alguns morangos com chocolate…










fábulas alheias




Quem escreve




Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre a terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.



António Ramos Rosa



07 Maio 2009




fábulas alheias




Haiku



Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas




Matsuo Bashô in “O gosto solitário do orvalho”, trad. de J.S. Braga








fábulas de lisboa




iv. cais das colunas




estou aqui há horas mas não me sinto em parte alguma…
onde estás, memória da nau que içavas âncora e partias?
procuro-te no turvo horizonte e interrogo a baça bruma
num querer vão de reviver esse oceano de especiarias...


na névoa de onde um rei é ainda esperado, já só uma gaivota voa...
deste rio partiram todos aqueles que se afundaram em dunas
mas agora apenas aqui aportam cacilheiros ávidos de lisboa
e é à deriva que também eu encalho neste cais das colunas...








05 Maio 2009



fábulas alheias




Los Borges



Nada o muy poco sé de mis mayores

Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue en mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como se nunca hubieran sido
Y ajenos a los trámites del arte,
Indescifrablemente forman parte
Del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
Son Portugal, son la famosa gente
Que forzó las murallas del Oriente

Y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
Se perdió y el que jura que no ha muerto.


Jorge Luis Borges in El Hacedor, 1960






04 Maio 2009




fábulas de lisboa



iii. chiado



uns passam o braço por cima do ombro e sorriem para a fotografia
outros sentam-se ao lado na cadeira vazia e afagam a minha mão
alguns dizem-me segredos e chamam-me «bigodes» e «nandinho»
e há sempre uma criança risonha que tenta tirar-me o chapéu
tenho sido insultado por muitos e agredido por ser eu e ser assim
mas já me beijaram os lábios frios e me tocaram onde não posso confessar

o que mais me custa mesmo é ter de passar as noites na solidão do chiado
e aprisionado nesta pele de bronze não poder ao menos descruzar as pernas…











fábulas alheias


o elevador de santa justa



podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.


podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sózinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.


no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
com o cesário dorme a última varina, a mais robusta.
não é para desoras o elevador de santa justa,
arrefece-lhe o esqueleto de metal,
mas tens o dia todo à luz do dia. não faz mal.



Vasco Graça Moura





03 Maio 2009



fábulas alheias




A palavra




A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


António Ramos Rosa in "Acordes", Ed. Quetzal, Lisboa (1989)








fábulas de lisboa



ii. calçada do combro



há em lisboa uma calçada que estudou o passado com os olhos postos no futuro.

quando soube do terramoto que houve em mil setecentos e cinquenta e cinco
achou que devia escolher um nome fácil de modificar em caso de calamidade,
uma palavra que pudesse revelar a sua verdadeira e mais íntima essência.

um louvor à calçada do combro, a única a pensar na transitoriedade da vida:
quando ocorrer uma nova catástrofe e esta calçada calçada deixar de ser
ao seu nome será necessário apenas acrescentar o simples prefixo ex-…
e a calçada ex-combro continuará a ser ela própria… a calçada escombro.




01 Maio 2009




fábulas de lisboa



i. cais do sodré



sempre que desaguo neste cais, olho um comboio e vejo nele uma nau
com timoneiro e marujos, navegando mansamente sobre carris de sal
e faço crescer nele mastros de madeira erguidos ao sabor do vento

surge então em mim o súbito desejo de embarcar numa carruagem
e ir desfraldando velas remendadas pelo entardecer do passado vão
rumo a essa foz onde o lamento se esquece e a glória por fim renasce

mas a estação está tão vazia de sonho como estas águas embaciadas
e, de costas para o rio como a cidade entorpecida que me ignora,
escondo um suspiro e dou por mim perdido a subir a rua do alecrim





uma fábula recorrente



dizem que todos temos um pesadelo recorrente. o meu é assim:

caminho sobre um muro alto e estreito e vejo lá em baixo uma tábua

nela está espetado um prego que aponta para cima, para o muro, para mim

então caio e o meu olho e o prego aproximam-se, aproximam-se cada vez mais





29 Abril 2009





os fabulosos irmãos pessoa




alberto ergueu a mão e tentou esconder o sol abrasador, voltando a recordar o pastor sem rebanhos que naqueles últimos dias não lhe saía do pensamento


o gesto não passou despercebido a álvaro, que julgou ver nele um impulso dinâmico provocado por esse estranho mecanismo de músculos e tendões encerrado num braço humano


à sombra de uma árvore ali perto, ricardo despertara envergonhado de um vago sonho amoroso, e olhando para eles disfarçara o remorso num suspiro


fernando estava muito longe dali, num café da cidade levando um copo aos lábios... mas naquele preciso momento pensou nos irmãos e pela primeira vez na sua vida desejou ser filho único









fábula da sobrevivência à improvável colisão entre um castelo e um aqueduto



reza assim:


numa das mais famosas esquinas da capital deu-se a improvável colisão entre um castelo e um aqueduto
ambos se apresentaram pela direita de modo que nenhum se deu como culpado
preencheram a obrigatória declaração amigável em conjunto à mesa de um café
consta que regressaram aos seus locais habituais aliviados por terem sobrevivido