textos, reflexões, poemas, fragmentos: fábulas incompletas

17 Abril 2010








fábulas de lisboa






xxix. cidade dos sete mares





quem me dera aportar a ti mesmo longe de um porto
sentir-me tão próximo da lembrança das tuas ruas
que entre nós dois apenas esse nós pudesse haver
e poder ser parte de ti nos mapas dos teus mapas
como uma semente num fruto proíbido por colher


e balouçar qual navio perdido à deriva na calçada
da memória das antigas caravelas a ti ancoradas
cidade de contornos infinitos esculpidos em lioz
sonhada a preto e branco pelos que sonho em mim
voando nas asas do desejo ou nos braços desse anjo


que paira desaguado em ti como um suave delta
serás sempre uma linguagem ainda não falada
a promessa da palavra inaudita dita por escrever
nos velhos muros que parecem limitar-te a voz
mas que em silêncio são o grito da tua canção


e perceber que qualquer maré sobe tanto em cada cais
como na buenos aires de borges ou na dublin de joyce
mas menos nesta desassossegada lisboa dos pessoa
por ser mais náutica e livre que as águas que a lavam
por haver um mar em cada uma das suas sete colinas







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não sou um livro aberto mas faltam-me sempre páginas. escrevo quando posso e, de certo modo, posso quando escrevo.